• Viviane Massi

Vacinação: serviço como diferencial competitivo para a farmácia


A pandemia do novo coronavírus colocou novamente em evidência o quão importante é estar imunizado contra diversas doenças. No momento, a vacinação contra a Covid-19 é prioridade para o Governo Federal. Ela vai desenvolver a imunidade de rebanho, reduzir o elevado número de mortes e proteger a população do vírus.


No entanto, apesar de todas as atenções estarem voltadas à imunização contra o novo coronavírus, o Brasil continua enfrentando o desafio de melhorar a cobertura vacinal contra outras doenças, principalmente de algumas que haviam sido erradicadas e controladas, como febre amarela e sarampo.


Mesmo a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhecendo o Programa Nacional de Imunização brasileiro como um dos melhores do mundo, com 38,8 mil postos de vacinação no País, os números preocupam especialistas.


De acordo com dados do DATASUS, do Ministério da Saúde (MS), de 2016 em diante, observa-se uma queda considerável no índice de pessoas vacinadas. Em 2015, o percentual era de 95,07%. Em 2019, essa cobertura atingiu apenas 45,65% da população brasileira. Se em 2015 foram aplicadas 63 milhões de doses, em 2019 esse número caiu para 33,5 milhões. Os dados de 2020 ainda não foram divulgados.


Entre os fatores que contribuem para a queda na cobertura vacinal, destacam-se o medo do procedimento técnico, a dificuldade de atendimento nas Unidades Básicas de Saúde, a grande quantidade de fake news veiculadas de maneira irresponsável, o movimento antivacina, a falta de uma legislação específica sobre vacinação obrigatória e o desconhecimento por grande parte da população sobre os benefícios da vacinação.


A queda no índice de cobertura vacinal é a principal responsável pela disseminação de doenças que estavam sob controle. O sarampo, por exemplo, é uma doença viral aguda e extremamente grave, principalmente em crianças menores de 5 anos de idade, pessoas desnutridas e imunodeprimidas. A transmissão do vírus ocorre de forma direta, por meio de secreções nasofaríngeas expelidas ao tossir, espirrar, falar ou respirar próximo às pessoas sem imunidade contra o sarampo.


Em 2020, ao todo, foram 8,4 mil casos registrados no País. O vírus permanece ativo em quatro estados: Amapá, Rio de Janeiro, São Paulo e Pará. De acordo com o Boletim Epidemiológico – volume 52, emitido pela Secretaria de Vigilância em Saúde do MS em março de 2021, considerando o período entre as semanas Epidemiológicas 45 de 2020 e 3 de 2021, foram notificados 419 casos suspeitos de sarampo, com 61 (14,6%) confirmados.


Em 2019, 57,19% da população brasileira foi imunizada contra o sarampo com a primeira dose da Tríplice Viral, que também protege do vírus da caxumba e da rubéola. A segunda dose foi aplicada em um número menor: 48,37%. Em 2018, esses percentuais foram de 91,89% e 76,49%, segundo dados do DATASUS. Até o fechamento deste artigo, não existiam dados de 2020 disponíveis.


Além de campanhas ocasionais feitas pelo MS para reverter esses números, o Calendário Nacional de Vacinação apresenta indicações de vacinação contra o sarampo para pessoas de 12 meses a 59 anos de idade, mas principalmente a população adulta não tem o hábito de se vacinar.


“Houve perda progressiva e assustadora de cobertura vacinal nos últimos cinco anos em todas as vacinas previstas no Calendário Nacional de Imunização. Infelizmente, estamos abaixo da meta, que é de 90 a 95% a depender da vacina. De certa forma, a Covid-19 está evitando, por exemplo, que o sarampo se alastre ainda mais, porque as pessoas estão em casa. No entanto, precisamos reverter esse cenário e voltar a vacinar como vacinávamos para que todos estejam protegidos quando voltarem às ruas”, analisa a médica e diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Mônica Levi.


Acompanhe aqui os números da vacinação contra Covid-19


Benefícios das vacinas para a população


O Calendário Nacional de Vacinação do MS prevê 19 vacinas ao longo de toda a vida de um indivíduo, todas disponíveis no SUS. Ocorre que, por questões culturais ou desconhecimento, muitas pessoas acreditam que apenas crianças devam ser vacinadas. A pandemia de Covid-19 vem mostrando que não é bem assim, que todos precisam ser vacinados em determinado momento da vida, seja para se manter saudável e imune a doenças que já existem, seja para evitar adoecer com novos vírus e cepas que surgem quando menos se espera.


“A vacinação é a melhor maneira de se exercer a atenção primária à saúde, e de acordo com a OMS, milhares de mortes são evitadas anualmente no mundo em decorrência da aplicação de vacinas. Manter o calendário da vacinação em dia é a forma de garantir proteção contra doenças consideradas de interesse prioritário à saúde pública do País”, alerta Klauber Menezes Penaforte, professor do curso Habilitação do Farmacêutico em Vacinação, do Instituto de Ciências, Tecnologia e Qualidade (ICTQ).


Para os idosos, as vacinas são tão importantes quanto para as crianças no início da vida, pois, com o avançar da idade, é comum que o sistema imunológico do idoso fique mais enfraquecido e suscetível a doenças infecciosas. O hábito de idosos se vacinarem ficou mais forte a partir do momento em que o MS passou a realizar campanhas pontuais contra o vírus influenza, que provoca a gripe H1N1. Esse vírus foi responsável pela primeira pandemia do século 21.


“Ao receber uma vacina, o sistema imunológico do idoso é estimulado e responde com a produção de anticorpos que traz imunidade e previne doenças virais e bacterianas, diminuindo os riscos de internação. Portanto, as vacinas são de extrema importância para um envelhecimento ativo e mais saudável”, acrescenta Ana Lucia Caldas, farmacêutica gerontóloga e professora da Unisuam e mestre em Ciências do Cuidado em Saúde.


Possibilidades para se ampliar a cobertura vacinal


Clínicas privadas e farmácias e drogarias são apontadas como potenciais parceiros do MS para ampliar a cobertura vacinal no País, seja por meio da participação em campanhas nacionais, seja pela oferta do serviço em salas de saúde por iniciativa própria, como ocorre com a vacina contra dengue, prevista apenas no Calendário Vacinal da SBIm 2020/2021.


Essas parcerias vêm ocorrendo, ainda de forma tímida, mas com eficiência no que se pretendem: ampliar o número de pessoas vacinadas. Em 2020, no Rio de Janeiro, estabelecimentos farmacêuticos participaram das campanhas de imunização contra influenza e sarampo a pedido da própria Secretaria Municipal de Saúde. E, em Porto Alegre e São Paulo, boa parte das doses aplicadas contra a gripe H1N1 foram provenientes de salas de vacinação em farmácia.


Em 2021, até o fechamento deste artigo, duas grandes redes do mercado – Drogal e Raia Drogasil – haviam cedido salas farmacêuticas para as prefeituras ampliarem os postos de vacinação contra Covid-19.


Nos exemplos acima, as farmácias receberam os imunizantes e não cobraram pelo serviço, mas contribuíram com a saúde pública, atraíram novos clientes e agregaram valor à marca. Ou seja, todos saem ganhando quando atuam em parceria.


Alguns estados e municípios, inclusive, já editaram normas locais autorizando farmácias a participaram de campanhas de imunização conforme a relevância em saúde pública, entre eles, o próprio Rio de Janeiro, com a Resolução SMS nº 4.396/2020.


Para Ana Lucia, as farmácias cumprem um papel de extrema importância no processo do cuidado farmacêutico, portanto devem participar das campanhas de vacinação juntamente com os governos com o objetivo de promover o acesso da população à prevenção de doenças e garantir a ampliação do serviço de imunização.


Nos Estados Unidos, em fevereiro, o governo autorizou a participação de 6,5 mil drogarias a vacinarem contra o novo coronavírus, num reconhecimento público de que a capilaridade do setor é fundamental.


O número de farmácias, no Brasil, supera os 80 mil estabelecimentos, conferindo um poder de abrangência muito grande. A título de comparação, são apenas 3 mil clínicas privadas de vacinação, ou seja, a capilaridade do varejo farmacêutico é muito maior.


“É mais fácil ter uma farmácia perto de casa do que um posto de saúde ou uma clínica. Cabe ressaltar que, em se tratando de vacinação, não devemos falar em concorrência entre o setor público e privado, pois, na verdade, o que se busca é um denominador comum, ou seja, um aumento da cobertura vacinal e consequente alcance das metas vacinais”, observa Penaforte.


Serviço farmacêutico como diferencial competitivo


Em âmbito nacional, o serviço de imunização nos estabelecimentos farmacêuticos é regulamentado pela Resolução RDC 197/17, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Basicamente, é necessário ter licença sanitária do município para realização de serviços farmacêuticos e de vacinação, possuir registro no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) e ter profissional farmacêutico habilitado para o serviço de vacinação em curso credenciado pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF).


Segundo Ana Lucia, o farmacêutico, profissional autorizado a realizar os serviços de saúde, precisa assumir a responsabilidade compartilhada pelo cuidado dos clientes/pacientes, para manter ou conquistar a confiança das pessoas que buscam ajuda para iniciar ou manter seus tratamentos. “Portanto, o profissional deve acolher as dúvidas e saber ouvir sem julgar. Discutir os benefícios das vacinas e fornecer as informações precisas, sem esquecer-se de aceitar as diferenças culturais e intelectuais”, analisa a gerontóloga.


Vale lembrar que outros serviços vêm sendo oferecidos nos mais de 1,4 mil consultórios farmacêuticos espalhados pelo Brasil, entre eles, aferição de pressão arterial, aplicação de injetáveis, teste de glicemia, perfil lipídico, nebulização, avaliação corporal, vacinação, teste rápido de Covid-19, entre muitos outros.


Como e quanto cobrar pelo serviço de imunização


É bom para a saúde da população, mas também pode ser lucrativo para a farmácia realizar o serviço de vacinação em salas preparadas e equipadas para atendimento seguro e de qualidade, com profissional qualificado. Atualmente, todo e qualquer serviço farmacêutico pode, e deve, ser cobrado pela farmácia. Isso é necessário para a manutenção da sala, remuneração do farmacêutico, ações de marketing e compra de insumos. Trata-se de um negócio dentro de outro.


As farmácias estão autorizadas a aplicar todas as vacinas com registro no País, previstas e não previstas no Calendário Nacional de Imunização, como, por exemplo, a vacina contra dengue, a Dengvaxia®, da empresa francesa Sanofi Pasteur, disponível apenas na rede privada e prevista no calendário da SBIm.


Nas salas de saúde da Ponto Care, a vacina mais barata é a Hepatite B, que custa R$ 72,72; e a mais cara, R$ 758,82, que imuniza contra a doença causada pela bactéria Neisseria meningitidis do grupo B. Os preços das vacinas, no entanto, variam muito, porque dependem de variáveis como quantidade em estoque, lote e concorrência.


Os resultados financeiros estão diretamente relacionados a um conjunto de fatores, como comprometimento da equipe, divulgação para a comunidade dos serviços oferecidos, estabelecimento de metas para atendimento mensal e compreensão de que uma sala de saúde não se paga sozinha. Empresário, gestor e farmacêutico precisam definir estratégias eficazes para garantir a perenidade e a lucratividade da sala de saúde.


Como grande parte da população desconhece o fato de que muitas farmácias estão preparadas e habilitadas para vacinar, cabe ao empresário promover ações de marketing para propagar essa informação, assim como treinar e orientar sua equipe para comentar sobre a sala de saúde com os clientes, colocando os serviços à disposição.




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