• Viviane Massi

Pandemia de Covid-19 eleva número de pessoas com insônia. Saiba como a farmácia pode atuar

A insônia, que já era considerada um grave problema de saúde pública, está sendo classificada como epidemia na pandemia de Covid-19. Se antes, 15% da população mundial tinha insônia, esse número cresceu para 34%, de acordo com dados da Associação Brasileira de Medicina do Sono (ABMS). A preocupação, o estresse e até a mudança da rotina vividos durante a pandemia são os fatores que têm contribuído para a elevação no número de queixas.


“Durante a quarentena, as pessoas adotaram horários irregulares de sono, isto é, sem a rotina diária a qual estavam acostumadas. Passaram a deitar mais tarde e a acordar mais tarde, prolongando o tempo de sono pela manhã e perdendo o estímulo luminoso das primeiras horas. Esse estímulo de luminosidade tem uma função muito importante na sincronização do nosso ritmo biológico em definir o horário de dormir e acordar”, explica Márcia Assis, médica neurologista e diretora da ABMS.


Além disso, deve-se considerar outros fatores que estão contribuindo para elevar o número de pessoas com insônia. O medo de se contaminar com o novo coronavírus e as preocupações financeiras provocam estresse e ansiedade. É como se o cérebro entendesse que, diante de um perigo iminente, é importante ficar em vigilância o tempo todo, mesmo na hora de dormir, para sobreviver.


O trabalho remoto é um fator importante. O Instituto do Sono realizou uma pesquisa sobre o impacto do home office na vida das pessoas. Descobriu-se que, ao todo, 55,1% dos participantes alegaram que o trabalho remoto piorou a rotina de sono. Entre os motivos, 75,1% destacam aumento das preocupações, 64% relatam muito tempo em frente a telas de computador e 54,1% apontam o tempo em casa de forma prolongada.


Pandemia desenvolve um novo transtorno mundial: a coronasomnia


Desde o ano passado, a grande imprensa vem noticiando que a qualidade do sono durante a pandemia foi fortemente impactada. No Reino Unido, um estudo de agosto de 2020 da Universidade de Southampton mostrou que o número de pessoas com insônia aumentou de uma em seis para uma em quatro. Na China, as taxas de insônia aumentaram de 14,6% para 20% durante o período de isolamento social. Nos Estados Unidos, cerca de quatro em cada dez pessoas relataram problemas para dormir durante a pandemia.


Em abril deste ano, a SleepFoundation, uma organização não governamental, principal fonte de informações sobre saúde do sono revisadas clinicamente e baseadas em evidências e testes aprofundados de produtos, publicou um artigo sobre o que se tem chamado de coronasomnia – coronasônia em português. “Embora a insônia esteja frequentemente ligada à ansiedade e depressão, a coronasônia difere da insônia tradicional porque está relacionada à pandemia de Covid-19”, afirma o artigo.


“Na pandemia, vivemos tempos de incertezas a respeito do futuro, excesso de informações e risco de adquirir uma doença que pode ser fatal. Esse estresse exacerbado pode gerar preocupação excessiva, medo, angústia e estado de alerta constante. Assim, as pessoas podem apresentar maior probabilidade de problemas para pegar no sono”, complementa a farmacêutica, professora e doutora em Ciências Farmacêuticas com ênfase em Neurociências, Fernanda Neves. Ao longo de seu doutorado, Fernanda trabalhou em um projeto sobre os efeitos da privação do sono.


Pesquisa aponta situação alarmante entre profissionais de saúde


Qualquer pessoa pode desenvolver sintomas de coronasônia, mas certos grupos têm um risco aumentado, entre eles, pacientes com Covid-19, trabalhadores da linha de frente, cuidadores não remunerados, trabalhadores essenciais e mulheres.


De 30 de maio a 25 de junho de 2020, a ABMS realizou uma pesquisa virtual com 4,9 mil profissionais de saúde. Naquela época, o sono desse grupo já estava comprometido. Os resultados da pesquisa revelaram que 41,4% dos profissionais de saúde entrevistados apresentavam insônia. Outro dado alarmante é que 13% iniciaram tratamento medicamentoso para voltar a dormir. Entre os entrevistados, 55,7% relataram que atendem ou já atenderam pacientes com Covid-19, sendo a maioria técnicos ou auxiliares de enfermagem, enfermeiros e médicos.


Projeto EPISONO estuda sono dos paulistas


Nas três primeiras edições do EPISONO, entre os anos de 1986 e 2007, o Instituto do Sono descobriu que mais de 60% da população paulistana sofre com problemas de sono. Os estudos mostraram ainda que 45% dos paulistanos queixam-se de insônia, 15% possuem insônia crônica e 5% tomam remédios para dormir.


O EPISONO é um projeto de pesquisa importante, realizado a cada década para verificar a qualidade do sono e a influência dos distúrbios de sono na saúde de uma amostra representativa da população da cidade de São Paulo. Um novo estudo foi conduzido entre 2018 e 2019, contando com quase mil novos voluntários, mas os dados ainda não foram divulgados.


Sintomas e riscos à saúde


A insônia é o distúrbio do sono que mais afeta a população, mas existem outros, como apneia do sono e síndrome das pernas inquietas. “A insônia pode ser definida como a queixa pela dificuldade em iniciar ou manter o sono, mesmo em condições adequadas. Quando essa queixa persiste por mais de três meses, na frequência de três ou mais noites por semana, levando a consequências durante o dia, como cansaço, sonolência, piora do humor, é considerada como insônia, problema que deve ser avaliado e tratado adequadamente”, alerta a ABMS.


É durante o sono que o sistema glinfático age drenando as toxinas que se depositam no sistema nervoso central. “Importante observar que, depois dos 60 anos, o indivíduo possui uma predisposição a desenvolver demências, entre elas, o Alzheimer, provocado pelo depósito dessas proteínas, formando emaranhados neurofibrilares, que provocam a perda de neurônios e consequentemente a perda da memória, principalmente a memória recente, inicialmente. Por isso, o sono é tão importante para nossa saúde e qualidade de vida”, observa Andrea Bacelar, neurologista e presidente da ABMS.


Os problemas provocados pela privação do sono em curto prazo são fadiga, sonolência diurna, diminuição do estado de alerta, ansiedade, mudanças no humor, alterações de memória, atenção, concentração, raciocínio, cefaleia, alteração da libido, perda da capacidade de argumentação lógica, entre outros.


Em longo prazo, falta de vigor físico, envelhecimento precoce, diminuição do tônus muscular, comprometimento do sistema imunológico – estando sujeito a mais infecções –, depressão, obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares – como hipertensão e arritmia –, doenças gastrointestinais e déficit de memória também podem afetar o indivíduo com insônia.


Tratamentos mais eficazes


As principais medidas não farmacológicas para tratamento da insônia são denominadas de higiene do sono, como deitar-se para dormir somente quando estiver sonolento, expor-se à luz natural especialmente no início e fim do dia, ter uma rotina para levantar e deitar todos os dias e não consumir cafeína, nicotina, álcool e alimentos pesados antes de ir para a cama.

Em alguns casos, essas medidas não são eficazes, sendo necessário fazer uso dos benzodiazepínicos sedativos hipnóticos, medicamentos potentes usados para indução e manutenção do sono em pessoas com insônia. Esses medicamentos são potentes, porém devem ser usados com muita cautela e nunca de forma contínua por longos períodos, pois podem levar a efeitos colaterais e à dependência.


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Importante lembrar que o tratamento da insônia, muitas vezes, engloba o gerenciamento de outros transtornos, como depressão, ansiedade e abuso de substâncias químicas, que também interferem na qualidade do sono.


“Os medicamentos não benzodiazepínicos sedativos hipnóticos são uma classe mais nova de medicamentos indutores do sono, principalmente o zolpidem. Eles têm menor risco de dependência e efeitos colaterais, como comprometimento da memória. Porém, se usados de forma contínua também podem apresentar outros riscos”, alerta a presidente da ABMS, Andrea Bacelar.


Farmacêuticos podem ajudar no tratamento


A melhor forma de o paciente ter um atendimento integral e humanizado é por meio de acompanhamento multiprofissional. Nesse sentido, o farmacêutico é peça-chave. “Diversas vezes, o paciente vai ao médico e, durante a consulta, fica ansioso, inibido ou envergonhado e, ao sair do consultório, tem em suas mãos uma prescrição e muitas dúvidas. O farmacêutico, que geralmente se encontra mais próximo da população, pode sanar as dúvidas desse paciente, explicar o motivo e a função dos medicamentos, sugerir os melhores horários para tomar, como evitar possíveis efeitos colaterais e instruir sobre as interações medicamentosas”, enumera Fernanda.


Segundo ela, o farmacêutico deve buscar os melhores resultados do tratamento farmacológico com foco nas necessidades individuais do paciente e em colaboração com ele. É fundamental conhecer quais medicamentos estão sendo utilizados e a necessidade, efetividade e segurança deles, orientando sobre os efeitos colaterais e os prejuízos a longo prazo.


“Uma situação muito comum é o paciente que não obtém resultados no tratamento da insônia. Quando investigo, verifico que ele usa os medicamentos da maneira errada porque acha que da forma prescrita não faz efeito. Ao orientar sobre as indicações de cada medicamento e sobre os problemas que podem estar provocando a insônia, como depressão ou ansiedade, o paciente começa a fazer uso correto e passa a obter excelentes resultados, com remissão dos sintomas”, defende Fernanda.

Serviço na farmácia avalia débito de sono em paciente


A avaliação de débito de sono é um dos serviços que podem ser oferecidos numa sala farmacêutica. Ele consiste na aplicação de um questionário cujo objetivo é avaliar o comportamento da pessoa durante o sono. É comum encontrar indivíduos que pensam dormir por 8 horas seguidas, conforme recomendam os especialistas. No entanto, depois de passarem por essa avaliação, descobrem que acordam muito à noite, tendo, por isso, um sono de má qualidade.


O questionário de avaliação de débito de sono traz perguntas como “Costuma desligar o despertador para dormir mais um pouco?”, “Acha difícil sair da cama pela manhã?”, “Sente que sua disposição muitas vezes se desaparece como por encanto?”, entre outras. Ao todo, são 17 perguntas, que ao final geram uma nota que varia de menos de 12 a mais de 36 pontos, em que menos de 12 é um sono normal e mais de 36, um débito de sono preocupante. Na Declaração de Serviço Farmacêutico, o farmacêutico deverá orientar o paciente a buscar ajuda de um especialista para tratar a insônia.


Nas salas da Ponto Care, o serviço de avaliação de débito de sono pode custar a partir de R$ 15 e representa uma oportunidade de fidelização do cliente. Numa época em que as pessoas estão cada vez mais com dificuldades para dormir, oferecer um atendimento especializado pode significar mais uma maneira de rentabilizar o atendimento farmacêutico e agregar valor à marca da sua farmácia.




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