• Viviane Massi

Muito além da Covid-19: o que sua farmácia pode fazer para ajudar a população no controle de doenças

Atualizado: Mai 17


As doenças respiratórias crônicas representam cerca de 7% da mortalidade global, o que corresponde a 4,2 milhões de óbitos anuais. No Brasil, em 2011, elas foram a terceira causa de morte no conjunto de doenças crônicas não transmissíveis.


De acordo com o último Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde do MS, referente ao período de 2003 a 2013 e publicado em 2016 – o mais atual –, a asma foi responsável por 38% das internações hospitalares por doenças respiratórias crônicas entre 2003 e 2013.


Bronquite, enfisema, outras doenças pulmonares obstrutivas crônicas e do aparelho respiratório representaram 70% dos óbitos no período. As taxas de internação hospitalar e de mortalidade foram maiores no Sul, com média de 537 e 46/100 mil habitantes, respectivamente.


Em 2020, devido à pandemia de Covid-19, a maior incidência tem sido provocada pelo Sars-CoV-2, o novo coronavírus. Com isso, outras doenças respiratórias acabaram ficando em segundo plano, mas continuam sendo uma ameaça à saúde da população, principalmente nas estações mais frias e secas do ano.


A vacinação anual é a melhor forma de prevenção contra diversas doenças respiratórias, sendo especialmente recomendada para pessoas com maior risco de complicações e mortes.


Por isso, o Ministério da Saúde (MS) realiza campanhas anuais de imunização contra influenza, doença responsável pelos quadros mais graves, com exceção da Covid-19. Em 2020, de acordo com o DATASUS, foram aplicadas mais de 50 milhões de doses, atingindo uma cobertura vacinal de 95,69%, percentual dentro da meta do governo.


Principais doenças respiratórias do outono/inverno


De acordo com o médico José Tadeu Colares, coordenador da Comissão Científica de Infecções Respiratórias da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), as principais doenças respiratórias prevalentes no outono/inverno são as infecções de vias aéreas superiores e inferiores, como resfriados, gripes, traqueobronquites e pneumonias, além das exacerbações das doenças alérgicas respiratórias como rinossinusite alérgica e asma brônquica.


Estima-se que 334 milhões de pessoas em todo o mundo têm asma. É a doença crônica mais comum da infância, afetando 14% das crianças a nível mundial, e sua prevalência está aumentando, de acordo com o Fórum Internacional de Sociedades Respiratórias.

De acordo com dados da OMS, as alergias atingem, em média, 30% da população mundial. Especialistas estimam que, até o final do século, metade dos brasileiros deve sofrer com diversos tipos de alergias.


Maior desafio é diagnóstico correto


Para o pesquisador e infectologista Edimilson Migowski, o maior desafio é chegar ao diagnóstico correto, pois diferentes doenças, como rinite, asma, gripe ou mesmo a Covid-19, podem apresentar sintomas semelhantes e confundir o profissional de saúde, comprometendo o tratamento correto e agravando o estado de saúde do paciente.

“Além de um quadro clínico confuso, a ausência de ferramentas para um diagnóstico etiológico – aquele que identifica a causa da doença – também leva a possíveis conclusões equivocadas e, por consequência, a tratamentos ineficazes. Por isso, a prevenção deve ser estimulada, principalmente por meio da vacinação”, alerta o especialista.


No entanto, as pessoas, em geral, não se previnem, quase sempre por falta de informação e acesso à atenção primária em saúde. As medidas de prevenção contra a Covid-19 – distanciamento, uso de máscaras e higienização das mãos – vêm reduzindo várias outras doenças infecciosas que eram transmitidas de uma pessoa para outra pelo contato, como resfriados e gripes.


“O Brasil tem iniciativas excelentes, como a vacinação contra H1N1, mas peca na questão da promoção da saúde em termos de educação permanente da população. Minha expectativa é de que, de tanto se falar nas medidas para evitar contágio com o novo coronavírus, isso traga uma repercussão para várias outras doenças infecciosas ou não, por conta dos novos hábitos”, analisa Migowski.


Controle das doenças respiratórias: responsabilidade multiprofissional


A responsabilidade pelo diagnóstico e pela prescrição do tratamento é do médico, mas farmacêuticos, fisioterapeutas, enfermeiros e outros profissionais de saúde podem contribuir para que os pacientes façam uma correta adesão ao tratamento e obtenham os melhores resultados com ele. A promoção da saúde compete a todo e qualquer profissional da saúde, em qualquer área que estiver inserido.


Na atuação multiprofissional, para garantir os melhores resultados com o tratamento medicamentoso, compete ao farmacêutico orientar sobre a melhor forma de administrar o medicamento, definir métodos que garantam a adesão e fornecer informações sobre interação medicamentosa e efeitos adversos.


“Nem sempre o médico que prescreveu tem noção de todos os medicamentos que o paciente vem tomando. Um idoso, por exemplo, com várias comorbidades, é polimedicado. Será que diante de uma doença infecciosa aguda, como gripe, Covid-19 ou outro quadro qualquer, o médico terá toda a informação sobre interação medicamentosa? Provavelmente, não. Por isso, o apoio de um farmacêutico experiente para que ele possa eventualmente criticar uma ou outra possibilidade de interação medicamentosa é fundamental”, defende o infectologista.


E a farmácia, como se insere nesse contexto?


Muitos clientes procuram as farmácias com queixas respiratórias, principalmente nesta época do ano. A dificuldade de acesso a uma consulta no sistema público de saúde acaba levando muitas pessoas a pediram ajuda ao farmacêutico, que, por sua vez, pode contribuir de diversas maneiras com o diagnóstico e para amenizar os sintomas.


Quem passou por diversas experiências bem-sucedidas com a consulta farmacêutica foi o farmacêutico Ronaldo Ribeiro Georgetti, um dos pioneiros, no Brasil, a propor a avaliação respiratória como serviço farmacêutico realizado em farmácias e drogarias. Um de seus atendimentos chegou a ser relatado como caso de sucesso num periódico do setor.


Ao atender uma senhora febril que havia ido à farmácia comprar um xarope expectorante, Ronaldo a convenceu a passar por uma consulta farmacêutica. “Na ausculta pulmonar, identifiquei roncos e sibilos no terço médio do pulmão direito. Decidi não dispensar o xarope e fiz encaminhamento ao pronto-socorro mais próximo. A médica diagnosticou pneumonia e fez a prescrição de antibiótico. De volta à farmácia, dispensei o medicamento correto. Essa paciente poderia ter tido um quadro grave ou até mesmo falecido com complicações se não tivéssemos identificado a doença naquele momento”, conta o farmacêutico.


Não existe lei ou norma sanitária que autorize a ausculta pulmonar na farmácia, nem mesmo uma resolução do Conselho Federal de Farmácia (CFF). No entanto, em conjunto com outras entidades, o Conselho já elaborou uma proposta de texto que autoriza o serviço de ausculta pulmonar, além de outros procedimentos, e defenderá a aprovação dessa proposta na Anvisa.


“Temos em vigor uma lei avançada, a Lei Federal 13.021/2014, que coloca a farmácia como uma unidade de assistência à saúde e permite, por exemplo, que os farmacêuticos prestem serviços de vacinação nas farmácias. Mas, por outro lado, temos normas que restringem essa atuação, mas que estão em processo de revisão, como a RDC nº 44/2009, da Anvisa”, esclarece o CFF.


Caso o serviço de ausculta seja aprovado por resolução e passe a integrar o leque de serviços oferecidos pelas farmácias, os profissionais farmacêuticos precisarão se capacitar para realizar o procedimento de forma correta, como fazer atualmente nos cursos de vacinação. E ainda fazer o devido encaminhamento do paciente quando necessário, pois a ausculta pulmonar feita na farmácia não teria fins de diagnóstico, apenas de orientação.


Que serviços ajudam no controle e na prevenção?


A sala de saúde pode oferecer, basicamente, quatro serviços que atuam diretamente no controle e na prevenção a doenças respiratórias: avaliação pulmonar, nebulização, controle de asma e vacinação.


A avaliação pulmonar mede a quantidade de ar que um indivíduo é capaz de colocar para dentro e para fora dos pulmões. Ela é utilizada para identificar possíveis doenças, como asma, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e alergias respiratórias.


O serviço de nebulização​ tem a função de ajudar que um determinado medicamento chegue aos pulmões para ser absorvido pelo organismo que sofre de alguma enfermidade relacionada às vias aéreas e ao trato respiratório. Também é usado com soro fisiológico com a finalidade de umidificar e limpar as vias aéreas, amenizando sintomas de tosse, chiado ou sibilo no peito, congestão nasal e dificuldades respiratórias.​


O controle da asma é indicado para pessoas que têm crises recorrentes. Poder contar com o apoio do farmacêutico para um controle efetivo pode representar mais qualidade de vida e redução do risco de morte, já que a asma pode matar.


Esses serviços ainda não foram contemplados pela RDC 44, mas estão respaldados na Lei Federal 13.021/2014, que trata das atividades farmacêuticas, e na Resolução nº 585/2013, do CFF, que relaciona todas as atribuições clínicas do farmacêutico.


Por fim, as doenças respiratórias infecciosas podem ser prevenidas com as vacinas, por exemplo, contra o vírus H1N1, que causa a gripe. O serviço de imunização é autorizado, desde 2017, pela Resolução RDC 197/17, da Anvisa. Para vacinar, é necessário, basicamente, ter licença sanitária do município para realização de serviços farmacêuticos e vacinação, possuir registro no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) e ter profissional farmacêutico habilitado em curso credenciado pelo CFF.


Como rentabilizar os serviços farmacêuticos


A procura pelos serviços farmacêuticos está diretamente relacionada à informação que a comunidade tem sobre a farmácia. Quanto mais o empresário divulga a sala de saúde, mais demanda ela terá, elevando a rentabilidade do espaço.


Contar com a farmácia para fazer o controle de uma doença respiratória é bom para o paciente, que deixa depender apenas da rede pública de saúde, mas é vantajoso também para a empresa, que tem nos serviços farmacêuticos novas possibilidades de lucrar com o atendimento.


Cada empresário pode estabelecer o preço que desejar para cada serviço. As salas de saúde da franquia Ponto Care, por exemplo, cobram, aproximadamente, R$ 18 por uma avaliação pulmonar; R$ 6 pela nebulização; e R$ 20 pelo serviço de controle da asma. Esses valores vão depender muito do perfil do cliente da farmácia.


Mas lembre-se: para que a sala de saúde tenha resultados financeiros, a farmácia precisa investir em capacitação e processos para que a equipe e a dinâmica de loja se adequem na oferta de atendimentos primários em saúde.

51 visualizações0 comentário