• Viviane Massi

Mais peso e menos atividade física: efeitos do home office na saúde da população brasileira

No início da pandemia do novo coronavírus no Brasil, em março de 2020, o mercado de trabalho se viu diante de um grande desafio: mandar todo mundo para casa sem afetar os níveis de produtividade. Claro que toda regra tem exceção, pois muitos trabalhadores e profissionais da saúde não tiveram essa prerrogativa. No entanto, uma grande massa de pessoas se viu obrigada a mudar a rotina, a improvisar um escritório, a descobrir da noite para o dia o que é ter disciplina para trabalhar em casa com filhos, marido, cachorro, gato, papagaio.


Por conta de todos esses fatores, o home office mudou o hábito de vida das pessoas, em algumas situações para a pior. Elas engordaram, deixaram de praticar atividades físicas e se tornaram estressadas por terem que conciliar trabalho com demandas da casa. Nem todo mundo desacelerou, mas houve uma queda significativa nos níveis de exercícios em todo o mundo.


A fabricante de monitores de atividade física Fitbit realizou uma pesquisa mundial entre março e junho de 2020 e descobriu que o número médio de passos dados por dia durante o isolamento caiu drasticamente em comparação com os mesmos períodos em 2019. Entre os brasileiros, essa queda foi de 17,4%, levando o País a ocupar o 7º lugar no ranking mundial, perdendo para Turquia, Algéria, Romênia, México, Argentina e Felipinas, que andaram bem menos que o Brasil.


A “pandemia da inatividade” tem sido uma preocupação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que criou uma campanha com a hashtag #HealthyAthome (#SaudávelEmcasa), com informações sobre exercícios simples e a quantidade de atividade necessária para diferentes faixas etárias.


O principal medo é que uma queda brusca no condicionamento físico das pessoas possa contribuir para um aumento nos casos de doenças crônicas associadas à falta de atividade física, como obesidade e problemas cardíacos. E o pior: algumas dessas condições são fatores de risco para casos graves de Covid-19. Cientistas britânicos já descobriram, por exemplo, que mais pessoas com problemas de saúde que as tornavam mais vulneráveis à Covid-19 se exercitaram menos durante a pandemia.


Estudo da USP mostra ganho de peso entre a população


Segundo estudo da Universidade de São Paulo (USP), publicado em março de 2021, grande parte dos brasileiros passou a ficar mais tempo em casa e teve muitos dos seus hábitos modificados, com destaque para mudanças na alimentação, na prática de atividade física e no tempo de uso de televisão, celular e computador, o que levou a alterações no peso corporal.


O estudo da USP analisou o comportamento do peso corporal de cerca de 14 mil participantes do projeto NutriNet Brasil durante a pandemia, que informaram o peso imediatamente antes do início da pandemia de Covid-19 no Brasil – entre 26/01/2020 e 18/03/2020 – e após cerca de seis meses – entre 14/09/2020 e 19/10/2020. Os pesquisadores descobriram que a prevalência de ganho de peso excedeu à de perda: 19,7% engordaram mais de 2kg, enquanto 15,2% emagreceram 2kg, aproximadamente.


Além disso, os resultados mostraram maior risco de ganho ou perda de peso entre pessoas mais jovens, homens e entre aquelas que entraram na pandemia com excesso de peso. E ainda o maior risco de ganho de peso entre pessoas com menor escolaridade, devido à falta de informação sobre alimentação saudável.


Pessoas mal-informadas se alimentam mal


Os dados do NutriNet Brasil, um dos maiores estudos em alimentação e saúde do País, permitem analisar o comportamento das pessoas isoladas em casa durante a pandemia. Eles não são específicos sobre home office, mas sabe-se que home office e pandemia, no último ano, estiveram (e ainda estão) fortemente associados.


Segundo Maria Alvim, pesquisadora do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP, na análise sobre consumo alimentar, a boa notícia é que foram observados indicadores de alimentação saudável entre a população. “No começo da pandemia, as pessoas passaram a comer mais frutas, hortaliças e feijão. Achamos que isso se justificou pelo fato de as pessoas cozinharem mais em casa e por se preocuparem mais com a saúde. Nesta época, também não havia tanta inflação nos alimentos da cesta básica e não havíamos tido o diagnóstico do alastramento da fome no Brasil”, contextualiza Maria.


No entanto, concomitantemente, houve aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, não saudáveis, em algumas regiões como Norte e Nordeste e entre pessoas com menor escolaridade, o que sugere desigualdades sociais na resposta do comportamento alimentar à pandemia.


“O que observamos foi uma maior prevalência de ganho (20%) em relação à perda de peso (15%) na população estudada. Houve mais riscos para ganho de peso em jovens, homens, menor escolaridade e com presença prévia de excesso de peso. Compreendemos que a relação entre escolaridade/renda e ganho de peso tem a ver com o acesso aos alimentos e à informação”, acrescenta a pesquisadora.


Para Maria, a diminuição da prática de atividade física – lazer e deslocamento – também é um marco que pode ter contribuído para o ganho de peso na população, assim como afetações na saúde mental podem também ter impactos diretos no consumo de alimentos e no estado nutricional.


Impactos do home office na saúde mental


Toda moeda tem dois lados, assim como o trabalho home office. Se para alguns é positivo, pois não perdem tempo no trânsito nem são obrigados a suportar o desconforto do transporte público, para outros pode ser o caos físico e emocional. “Conheço pessoas para as quais foi extremamente difícil trabalhar em casa por conta do isolamento, levando ao desânimo e à desesperança”, comenta a psicóloga do Núcleo de Stress, Regina Montelli.


“O grande volume de reuniões virtuais tem levado alguns à exaustão e à frustração por não conseguirem produzir da maneira que gostariam. Há um excesso de exigência na tentativa de controlar as pessoas a distância, o que aumenta a ansiedade, o estresse e a frustração. As conversas informais, no cafezinho, no corredor, não existem mais e fazem falta, já que tudo virou reunião agendada e pela tela”, acrescenta Regina.


Vida sendo retomada aos poucos


Com o avanço da vacinação, a vida vai voltando ao normal com cuidados. Muitas empresas já voltaram ao trabalho presencial, mas existem aquelas que se manterão em home office como estratégia de negócio, por opção e para redução de custos.


A prática da atividade física nas academias e nos estúdios de Pilates, por exemplo, está sendo retomada. A fisioterapeuta e professora de Pilates, Leonor Venancio, está vivendo esse retorno. “Tivemos um esvaziamento de 100% dos alunos e pacientes, que ficaram sete meses sem fazer suas atividades. O impacto psicológico e o recolhimento social aumentaram de forma drástica a inatividade física, prejudicando inclusive a imunidade das pessoas, tornando-as mais suscetíveis a casos graves de Covid-19. Muito devagar, estamos retomando ainda com medo e restrições”, conta.


No estúdio de Leonor, neste retorno, as principais queixas dos pacientes por tantos meses isolados, em home office e sem exercícios físicos, são dores de toda ordem, cansaço, má qualidade do sono, excesso de horas de trabalho, muitas horas sentados em frente ao computador, entre outras. “Nós não fomos feitos para ficarmos parados. A falta de exercícios diminui a capacidade respiratória e aumenta as pressões internas, que levam qualquer corpo ao estresse físico e mental”, explica a fisioterapeuta.


Avaliação corporal e do estresse: como a farmácia pode ajudar


Há uma série de serviços de saúde que a farmácia pode oferecer com o objetivo de auxiliar as pessoas que estão com problemas provocados pelo home office, sejam eles físicos, sejam emocionais.


Um exemplo é a avaliação corporal, serviço com grande potencial ao se levar em consideração todo o cenário traçado neste artigo. Uma vez em casa, comendo mal e sem praticar atividade física, esse serviço pode ajudar as pessoas no controle do peso e agregar valor ao negócio, mostrando para a população que a função da farmácia pode ir além da venda do medicamento.


Na prática, esse serviço consiste na avaliação de parâmetros físicos de um indivíduo, mensurando índice de massa corporal (IMC), circunferência abdominal (CA), distribuição corporal (% de massa muscular, % de gordura), entre outros parâmetros.


É um tipo de serviço que pode ser útil ao cliente durante um programa de perda de peso, por exemplo, permitindo acompanhamento objetivo e com parâmetros mensuráveis. Além disso, contribui na prevenção a doenças cardiometabólicas, como hipertensão e diabetes.


Do ponto de vista emocional, a farmácia também pode contribuir para melhorar a qualidade de vida das pessoas que estão estressadas pelo trabalho home office com o serviço de avaliação de estresse. Consiste na aplicação de um questionário com 24 perguntas relacionadas aos principais sintomas de estresse, entre eles, se o paciente tem dores de cabeça por tensão ou enxaquecas, se está cansado demais e com dificuldades para dormir, se sente pés e mãos frios e suados, se apresenta palpitações cardíacas, enfim, uma anamnese completa.


Ao fim da consulta, as respostas geram uma pontuação que varia de 4 a 30 pontos, sendo 4 uma condição de vida sem estresse e a partir de 30 um nível de estresse muito intenso. Nesse último caso, o farmacêutico conversa com o paciente e o orienta a procurar ajuda médica o mais rápido possível.


Por fim, devido ao consumo de ultraprocessados, à pressão do trabalho que não cessa e à falta da atividade física, as pessoas podem apresentar picos hipertensivos. Por isso, o serviço de aferição da pressão arterial é mais um diferencial que pode atrair novos clientes, fazendo o estabelecimento ganhar em volume de atendimentos. E não esqueça de que pacientes hipertensos fazem uso contínuo de medicamentos e, justamente por isso, precisarão voltar mais vezes à farmácia.


A maioria dos especialistas concorda e os fatos não negam que a farmácia ganhou um novo status entre a população, saindo do simples conceito de varejo para assumir um importante papel de agente ativo na atenção primária. Esteja atento a isso ou você pode perder a chance de participar e crescer em meio a essa revolução silenciosa que a farmácia já começou a promover na saúde brasileira.

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