• Viviane Massi

Depressão na pandemia: estamos ou não mais deprimidos? E como a farmácia pode ajudar

A depressão é a principal causa de incapacidade e afastamento do trabalho em todo o mundo. De acordo com dados de 2017 da Organização Mundial de Saúde (OMS), são 320 milhões aproximadamente de pessoas vivendo com depressão em todo o planeta. No Brasil, são 11,5 milhões de casos, o que representa 5,8% da população brasileira, em sua maioria mulheres. Por causa desses números, o País ocupa a 5ª posição no ranking global de prevalência da depressão.


A ansiedade, importante fator de risco para o desenvolvimento da depressão, também tem dados alarmantes. A nível mundial, existem 264 milhões de pessoas convivendo com a ansiedade. No Brasil, país mais ansioso do mundo, são 18,6 milhões de casos, o que corresponde a 9,3% da população brasileira.


Na pior das hipóteses, a depressão pode levar ao suicídio. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano, sendo essa a segunda principal causa de morte entre pessoas com idade de 15 a 29 anos. Nas Américas, uma em cada quatro pessoas sofre de doença mental e/ou faz uso de substâncias contra distúrbios mentais durante a vida.


Cenário da depressão no Brasil segundo PNS 2019


A Pesquisa Nacional de Saúde – PNS 2019, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o Ministério da Saúde (MS), trouxe dados sobre a prevalência de depressão no Brasil.


Estima-se que 10,2% das pessoas de 18 anos ou mais de idade tenham recebido diagnóstico de depressão por profissional de saúde mental. Na PNS de 2013, esse percentual era de 7,6%. Isso representa 16,3 milhões de pessoas, com maior prevalência na área urbana (10,7%) do que rural (7,6%), números superiores aos divulgados em 2017 pela OMS.


As Regiões Sul e Sudeste apresentaram os maiores percentuais de pessoas com depressão diagnosticada, 15,2% e 11,5%, respectivamente, acima do percentual nacional: 10,2%.


A PNS 2019 verificou também uma maior prevalência dessa doença em pessoas do sexo feminino: 14,7% das mulheres contra 5,1% dos homens. A faixa etária com maior proporção foi a de 60 a 64 anos de idade (13,2%), enquanto o menor percentual foi obtido entre as pessoas de 18 a 29 anos de idade (5,9%). Observou-se ainda maior predomínio em pessoas nos extremos de nível de instrução, ou seja, pessoas com ensino superior completo (12,2%) e pessoas sem instrução e com fundamental incompleto (10,9%).


Entre as pessoas que referiram diagnóstico de depressão, 18,9% faziam psicoterapia e 52,8% receberam assistência médica para depressão nos últimos 12 meses anteriores à data da entrevista.


Em relação ao uso de medicamentos, 56,3% das pessoas com idade entre 60 e 64 anos tomam algum remédio para tratar a depressão; de 65 a 74 anos, esse percentual se mantém praticamente o mesmo (56,8%); e entre as pessoas com 75 anos ou mais, 61,9% fazem terapia farmacológica.


Pandemia de Covid-19 e seus impactos na saúde mental


O medo constante de se contaminar ou infectar outras pessoas próximas, morte de amigos e familiares, mudanças na rotina, distanciamento social, questões financeiras, entre outros fatores ligados à pandemia de Covid-19 podem estar contribuindo para elevar os quadros depressivos e ansiosos em muitos indivíduos.


O estresse prolongado e intenso é considerado um fator de risco e pode funcionar como um gatilho para o desenvolvimento da depressão e a ansiedade ou até mesmo intensificar os sintomas já existentes nos pacientes. Durante a pandemia, houve ainda uma ruptura nos serviços de atendimento, deixando muitas pessoas sem acompanhamento psiquiátrico e psicológico.


De acordo com a psicóloga e mestre em Psicologia, Inês Machado, a pandemia, como qualquer outro estressor, predispõe à angústia, ansiedade, sensação de impotência e estados depressivos. “Esses sintomas acometem as pessoas de formas diferentes, dependendo de vários fatores, como baixa tolerância à frustração, poucas estratégias de enfrentamento, histórico de vida, entre outros. Além de os vínculos terem sido afetados por causa do isolamento social, as pessoas estão passando por dificuldades financeiras sérias, perdas de entes queridos e pessoas próximas. Desse modo, fica-se o tempo todo em estado de alerta com medo de que algo pior está por vir. Esse estado pode predispor a um desequilíbrio da homeostase interna do corpo e levar à exaustão vivencial”, explica Inês.


No entanto, conforme um estudo realizado no Brasil e publicado em abril deste ano, não houve aumento geral no número de diagnósticos da depressão por causa da pandemia. Os números já se apresentavam elevados antes mesmo da Covid-19. O que se observa são pessoas com sintomas depressivos devido ao período em que se está vivendo.


O Estudo Longitudinal de Saúde Brasileiro (ELSA-Brasil), realizado no Centro de Pesquisas de São Paulo com apoio do Ministério da Saúde e do Ministério da Ciência e Tecnologia, avaliou psicopatologias relacionadas à pandemia e diagnósticos psiquiátricos, comparando as taxas de sintomas psiquiátricos comuns e os transtornos mentais depressivos e ansiosos. Foram comparados dados de 2008 a 2018 com três avaliações feitas durante a pandemia, em 2020.


“As taxas de transtornos mentais comuns e depressivos não mudaram significativamente ao longo do tempo, oscilando de 23,5% para 21,1% e 3,3% para 2,8%, respectivamente, nos 2.117 participantes com idade média de 62 anos, sendo 58,2% mulheres. Assim, nenhuma evidência consistente de agravamento da psicopatologia relacionada à pandemia foi encontrada em nossa pesquisa”, relataram os pesquisadores.


Apesar dessa boa notícia, a OPAS publicou um documento com intervenções recomendadas em saúde mental para ajudar as pessoas. “A pandemia de Covid-19 é uma ameaça de grande proporção, tanto para a saúde física como para a saúde mental, e o bem-estar de sociedades inteiras se viu gravemente afetado por essa crise. Essa é uma prioridade que deve ser abordada com urgência”, declarou a organização.


Coisa da sua cabeça? Livro descomplica a depressão


A farmacêutica Fernanda Neves, professora e doutora em Ciências Farmacêuticas com ênfase em Neurociências, está lançando o livro Coisa da sua cabeça? Como a depressão afeta seu cérebro. Fernanda dedicou alguns anos da carreira estudando as doenças neurodegenerativas e os fatores desencadeantes, entre eles, a depressão.


A proposta do livro é levar informação sobre depressão de forma simples, descomplicada e empática. “Ao conhecer o que acontece dentro do cérebro de uma pessoa depressiva, as pessoas podem compreender que a dor da depressão é real e, portanto, ajudar a salvar vidas e dar esperança aos que necessitam. O livro auxilia leitores deprimidos a compreenderem o seu sofrimento e enfatiza a importância da busca por atendimento profissional”, comenta Fernanda.


“No último capítulo do livro, eu falo sobre a importância da empatia para lidar com os pacientes depressivos sob a perspectiva e o olhar do personagem principal, o João. Ele acredita que aprender mais sobre a doença é o passo mais importante para compreender, respeitar e evitar julgamentos e preconceitos tão arraigados em nossa sociedade, mas que trazem tanto sofrimento aos indivíduos com depressão”, complementa.


O livro, lançado pela editora Litteris em parceria com o ICTQ, está disponível nas seguintes plataformas: Amazon, Lojas Americanas, Magalu, Shoptime, Submarino.


O que é e como se trata a depressão


Segundo Fernanda, a depressão é um transtorno psiquiátrico, potencialmente fatal, com quadro clínico caracterizado pela presença de humor triste, vazio ou irritável e/ou perda de interesse em atividades prazerosas, acompanhado de alterações do comportamento, como pensamentos negativos e de morte e perda de apetite, sono, energia; assim como alterações cognitivas, por exemplo, perda de memória e da capacidade para tomar decisões.


“Essa condição é oriunda da associação de componentes genéticos e fatores externos, como história de vida do indivíduo, eventos abusivos e traumáticos na infância, entre outros. Sendo assim, pessoas predispostas, que apresentam outros fatores de risco individuais associados a eventos estressantes, como esse que vivenciamos em 2020 e ainda em 2021, podem desenvolver o transtorno”, explica Fernanda.


Um fator de risco importante para o desenvolvimento da depressão é a presença de outro transtorno psiquiátrico, principalmente os transtornos de ansiedade. “A ansiedade faz parte do nosso funcionamento normal e é útil para a nossa sobrevivência, pois nos protege dos perigos. Inclusive pode ser uma característica da personalidade de uma pessoa ser mais ansiosa, produtiva, com iniciativa, e pode ser bom para o desempenho profissional, físico e pessoal”, esclarece a farmacêutica.


Mas, quando esse comportamento começa a ser disfuncional, traz prejuízo, dor e sofrimento ao indivíduo. Pessoas com transtorno de ansiedade não dormem bem, pensam constantemente no que fizeram e no que vão fazer, têm dificuldade para relaxar e manter a atenção, aumentam o apetite e buscam válvulas de escape como sexo, compras e abuso de álcool, além de outras alterações comportamentais, fisiológicas e cognitivas.


“Muitos sintomas, como fadiga, alterações do sono e problemas de concentração são comuns nos dois transtornos. Embora sejam diferentes, é comum que as pessoas com ansiedade apresentem também depressão com o decorrer do tempo e vice-versa”, acrescenta Fernanda.


Atualmente, existem diversos tratamentos, tanto psicológicos quanto farmacológicos, para ambas as doenças a depender da gravidade, do quadro clínico e das características individuais do paciente. Os medicamentos antidepressivos, como fluoxetina, sertralina, citalopram, venlafaxina, são a primeira opção de tratamento tanto para depressão como para ansiedade por causa de sua eficácia e segurança. Eles tratam os sintomas mais comuns e devem ser utilizados por um período adequado para que diminuam a chance de o paciente ter recaídas.


“Outros medicamentos, como os benzoadiazepínicos – diazepam, clonazepam, alprazolam – aliviam os sintomas ansiosos de forma pontual e aguda somente enquanto os antidepressivos começam a fazer o efeito desejado. Embora sejam medicamentos seguros, devem ser prescritos com critério, pois podem promover dependência e abstinência e prejuízos de memória a longo prazo”, alerta a farmacêutica.


Como o farmacêutico pode contribuir


O farmacêutico não pode fazer diagnóstico, mas pode apurar as necessidades e os problemas de saúde do paciente e encaminhá-lo a outro profissional de saúde, como psicólogo e psiquiatra. Por meio de instrumentos de rastreamento em saúde, é possível identificar fatores de risco para a depressão e ansiedade, avaliar a gravidade do quadro e realizar o acompanhamento do paciente para monitorar a resposta ao tratamento.


“Ele pode ainda orientar o paciente com intervenções educacionais e informativas para ensiná-lo e aos familiares sobre o que é depressão, os sintomas, fatores de risco, bem como sobre o tratamento medicamentoso, se houver. Isso promove adesão à terapêutica prescrita, além de trabalhar a conscientização em saúde e autocuidado”, detalha Fernanda.


O farmacêutico pode e deve prescrever cuidados não farmacológicos que, baseados em evidências científicas, auxiliam na prevenção e manutenção do tratamento da depressão, como atividade física, pelo menos, três vezes na semana, por 30 minutos; alimentação balanceada e saudável; exposição à luz solar; sono adequado e higiene do sono; entre outros. “O nosso principal papel é mostrar os melhores caminhos a serem seguidos para se obter os melhores resultados ao longo do tratamento e da vida”, finaliza a farmacêutica.


Avaliação da depressão na farmácia


Segundo a OPAS, embora existam tratamentos eficazes conhecidos para depressão, menos da metade das pessoas afetadas no mundo – em muitos países, menos de 10% – recebe tais tratamentos. “Os obstáculos incluem a falta de recursos e de profissionais treinados e o estigma social associado aos transtornos mentais. Outra barreira ao atendimento é a avaliação imprecisa. Em países de todos os níveis de renda, pessoas com depressão frequentemente não são diagnosticadas corretamente e outras que não têm o transtorno são, muitas vezes, diagnosticadas de forma inadequada, com intervenções desnecessárias”, alerta a organização.


A farmácia ainda não é conhecida pela população como um local onde as pessoas podem rastrear doenças e fazer o acompanhamento terapêutico. Tanto que a PNS 2019 mostrou que, em relação ao local de atendimento das pessoas que referiram depressão, 47,4% foram atendidas em consultório particular ou clínica privada; 29,7%, em uma unidade básica de saúde; e 13,7%, em um centro de especialidades, policlínica pública, PAM ou ambulatório de hospital público.


Ninguém citou a farmácia, mas isso tende a mudar a partir do momento em que o setor se comprometer a divulgar mais intensamente o seu papel de estabelecimento de saúde e a sua capacidade de melhorar a qualidade de vida das pessoas. Tornar as salas de saúde e os serviços conhecidos é um dos grandes desafios que se apresentam às farmácias brasileiras.


Nas salas de saúde, o rastreamento da depressão se dá por meio da aplicação de um questionário que busca levantar sinais de que o paciente possa estar deprimido ou entrando num estado depressivo que pode se agravar, caso não seja tratado.


O questionário contém nove perguntas que levantam informações sobre interesse do paciente pelas atividades diárias, estado de ânimo, dificuldades em adormecer, cansaço ou falta de energia, falta ou excesso de apetite, sensação de fracasso nas relações familiares e profissionais, dificuldade em se concentrar nas tarefas, inquietude, entre outras informações.


No fim da consulta, o aplicativo gera uma pontuação que varia de 0 a 19 pontos. Resultados a partir de 5 pontos já soam como alerta para que o paciente seja encaminhado pelo farmacêutico a um psiquiatra ou psicólogo.


Esse serviço custa, em média, R$ 20, podendo ser realizado em adolescentes, adultos e idosos. E, neste exato, momento em que muitas pessoas buscam ajuda para tratar seus sintomas depressivos, ofertar a avaliação de depressão pode significar um adicional na rentabilidade da farmácia.

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