• Viviane Massi

Controle do tabagismo: o que a farmácia pode fazer para reduzir o uso do tabaco

Atualizado: há 5 dias

Nesta segunda (31/05), comemora-se o Dia Mundial sem Tabaco. Nos últimos 25 anos, desde a publicação das leis que proíbem a propaganda de produtos derivados do tabaco e o uso de cigarros em locais coletivos fechados, privados ou públicos, em todo o País, o percentual de fumantes caiu de 32% para 12,8%. Nos últimos seis anos, a queda foi de 2%, passando de 14,9% em 2013 para 12,8% em 2019, segundo a mais recente Pesquisa Nacional de Saúde.


“O Brasil é um país reconhecido internacionalmente no controle do tabaco. Somos o segundo no mundo a cumprir todos os principais compromissos do tratado internacional, tanto que a prevalência de fumantes está em declínio e caminhamos para o atingimento da meta, que é ter menos de 5% da população usuária de tabaco. No entanto, internamente ainda há desafios, e o principal deles é elevar os tributos, tornando o cigarro um produto caro e inacessível para a maioria das pessoas”, analisa Valeska Figueiredo, coordenadora do Centro de Estudos sobre Tabaco e Saúde (Cetab/ENSP/Fiocruz).


A especialista refere-se à Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT), primeiro tratado internacional de saúde pública, desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) entre 1999 e 2003. O tratado entrou em vigor em fevereiro de 2005, e o Brasil foi um dos líderes em seu processo de desenvolvimento. Considerada um marco histórico para a saúde pública global, seu texto traz medidas para reduzir a epidemia do tabagismo em proporções mundiais, abordando temas como propaganda, publicidade e patrocínio, advertências, marketing, tabagismo passivo, tratamento de fumantes, comércio ilegal e impostos etc. Ao todo, 181 países ratificaram o tratado, entre eles, o Brasil.


Custos elevados para a saúde pública e a sociedade


Dados de uma pesquisa realizada pela pesquisadora Marcia Pinto, da Fiocruz, apontaram que, em 2015, as doenças relacionadas ao tabagismo geraram custos para o sistema de saúde no valor aproximado de R$ 40 bilhões, o que equivale a 8,04% de todo o gasto em saúde. Os gastos indiretos chegaram a R$ 17 bilhões devido à produtividade perdida por morte prematura e incapacidade. Esses resultados totais apontam para um gasto anual de R$ 57 bilhões, o que equivale a 0,96% do PIB nacional.


Em contrapartida, a arrecadação fiscal total pela venda de produtos de tabaco e derivados alcançou, em 2015, R$ 13 bilhões, um montante que cobre somente 33% dos custos diretos causados pelo tabagismo e que representa apenas 23% do gasto total atribuível ao uso do tabaco.


“Esses dados nos mostram que a conta não fecha, porque os recursos captados a partir dos impostos são muito menores do que se gasta no tratamento das doenças e com a perda de produtividade provocadas pelo tabagismo. Por isso, atuamos fortemente no Legislativo para elevar a carga tributária que incide sobre a venda do cigarro no Brasil”, justifica Valeska, do Cetab.


Uso do cigarro durante a pandemia do novo coronavírus


Estudo da Fundação Oswaldo Cruz, realizado em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade Estadual de Campinas, observou e descreveu as mudanças no estilo de vida, nas atividades de rotina, na situação de trabalho e nos cuidados à saúde que podem ter afetado a saúde da população brasileira durante a pandemia de Covid-19.


Entre os fumantes, 22,5% passaram a consumir dez cigarros a mais por dia durante a pandemia e 6,4% acrescentaram mais cinco. Por sexo, as mulheres passaram a fumar mais nesse período: 28,9% delas aumentaram em dez unidades o consumo de cigarros, enquanto entre homens esse percentual ficou em 16,8%.


O aumento no consumo diário de cigarros durante a pandemia – um comportamento que ainda não se sabe se vai perdurar quando essa situação passar – pode ser explicado, em parte, pela angústia e pela ansiedade que tomaram conta das pessoas, seja por medo da contaminação, seja pela perda de entes queridos.


“Além de os vínculos terem sido afetados por causa do isolamento social, as pessoas estão passando por dificuldades financeiras sérias, perdas de entes queridos e pessoas próximas. Desse modo, o indivíduo fica o tempo todo em estado de alerta com medo de que algo pior esteja por vir. E por isso se utiliza dos meios que disponibiliza para enfrentar a situação, como é o caso do uso do tabaco, que oferece um alívio momentâneo”, explica Inês Machado, mestre em Psicologia e escritora.


Ao fazer uso do tabaco, a pessoa pode sentir uma melhora no humor, porque a nicotina, como qualquer outra droga, estimula a produção de dopamina no cérebro, que é uma substância que proporciona a sensação de prazer. No entanto, os prejuízos à saúde são enormes.


Fator de risco para a Covid-19


No início da pandemia do novo coronavírus, os fumantes chegaram a entrar no grupo de risco, mas descobriu-se que ser usuário de tabaco não necessariamente determina que um paciente terá complicações. O que se deve observar é se ele tem ou não doenças provocadas pelo tabagismo.


“A comunidade médica já entendeu que a Covid-19 é uma roleta-russa. No entanto, o tabagismo causa doenças como bronquite crônica, enfisema pulmonar e hipertensão arterial, e as pessoas que as possuem estão no grupo de risco para complicações. Então, indiretamente, fumar pode ser, sim, um risco para agravar um quadro de Covid-19”, explica Elie Fiss, pneumologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.


Doenças provocadas pelo tabagismo


Segundo dados de 2019 da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), o consumo de tabaco e seus derivados mata cerca de oito milhões de indivíduos a cada ano. No Brasil, o tabagismo e a exposição passiva ao tabaco são responsáveis por 428 mortes diárias e aproximadamente 156 mil óbitos anuais, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca).


Apesar de, no geral, os números estarem em declínio, pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz comprova o que já vem sendo observado no meio médico: as mulheres estão fumando mais. Tanto que, segundo o Centro Especializado em Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o câncer de pulmão compromete as mulheres quase que na mesma proporção dos homens.


Esse aumento no número de casos dos tumores pulmonares em mulheres se deve ao consumo crescente de tabaco e a maior dificuldade que as mulheres fumantes têm de deixar de fumar. Além disso, estudos recentes sugerem que talvez elas sejam mais suscetíveis aos efeitos cancerígenos dos componentes do cigarro.


De acordo com o Inca, o tabagismo ativo e passivo são os principais fatores de risco para o desenvolvimento do câncer de pulmão, um dos tumores malignos mais comuns no mundo, com 1,7 milhão de novos casos diagnosticados por ano, segundo estimativas da OMS.


No Brasil, estimam-se, para cada ano do triênio 2020-2022, 17.760 novos casos de câncer de pulmão em homens e 12.440 em mulheres. Em geral, é diagnosticado depois dos 50 anos de idade em 90% dos casos, sendo a faixa etária de 60 a 70 anos a mais frequentemente comprometida.


Segundo o Centro de Oncologia do Hospital Oswaldo Cruz, apesar de ser uma doença agressiva e muito frequente, o câncer de pulmão é evitável na maioria dos casos. Os tumores malignos do pulmão, traqueia e brônquios estão relacionados ao tabagismo em cerca de 90% das vezes em que ocorrem.


Estima-se que o risco de um fumante desenvolver câncer de pulmão é de cerca de 20 a 60 vezes maior que o risco de um não fumante. Mesmo para o tabagista passivo, o risco é de, pelo menos, três vezes mais que o de uma pessoa não exposta à fumaça do cigarro.


Sintomas e tratamento do câncer de pulmão


Geralmente, os sintomas decorrentes do câncer de pulmão aparecem apenas quando a doença já está avançada. “O diagnóstico precoce é fundamental para que haja tempo de um tratamento mais efetivo com intervenção cirúrgica. Quando se extrai a parte doente do pulmão, as chances de cura total são enormes. Na maioria dos casos, o paciente nem chega a precisar de quimioterapia ou radioterapia. Mas, para isso, é realmente necessário diagnosticar a doença logo no início”, explica o pneumologista Elie Fiss.


Os sintomas mais frequentes são tosse, falta de ar, chiado, presença de sangue no catarro e dor no peito. No entanto, como eles se confundem com outras doenças respiratórias, é preciso ficar atento se for um fumante ativo ou passivo. Diminuição do apetite e perda rápida de peso também são sinais que devem chamar a atenção para a possibilidade de câncer.


Cigarro eletrônico fracassa como alternativa


Chegou-se a pensar que o cigarro eletrônico pudesse ajudar no controle e na redução do tabagismo, mas hoje as opiniões divergem. A indústria do tabaco alega que há benefícios porque o dispositivo mantém o usuário livre das substâncias tóxicas e cancerígenas, como cádmio, arsênio e muitas outras, mas a grande maioria de especialistas e estudiosos que atua no controle do tabagismo concorda que o cigarro eletrônico é uma porta de entrada do jovem para o tabagismo convencional.


“Sendo um fumante regular, até pode haver benefícios se ele mudar para o cigarro eletrônico. No entanto, o que temos observado é que as pessoas não fazem essa troca. Elas passam a fumar os dois: cigarro normal e eletrônico. E os jovens, pelo apelo sexual, acabam começando pelo eletrônico, se tornam dependentes da nicotina e passam a usar cigarro comum”, observa Valeska, do Cetab.


No Brasil, o cigarro eletrônico é proibido, mas, nos Estados Unidos, seu consumo elevado chegou a provocar, em 2019, um surto de uma doença relacionada ao uso de cigarro eletrônico, denominada EVALI.


Estudos indicam que a lesão pulmonar é provocada pelo acetato de vitamina E, óleo usado para diluir o THC, substância psicoativa da maconha, toxina letal mais provável como causa da EVALI, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC).


De acordo com a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, os sintomas respiratórios da EVALI costumam incluir tosse, dor torácica e dispneia. Também são comuns sintomas gastrointestinais, como dor abdominal, náuseas, vômitos e diarreia e sintomas inespecíficos, como febre, calafrios e perda de peso.


Melhor opção ainda é tratar o tabagismo


A dependência física do tabaco pode ser tratada com o uso de medicamentos específicos e terapia de reposição de nicotina, como goma de mascar, pastilhas e adesivos. A dependência psicológica está associada à ansiedade, que é tratada com antidepressivos e terapias individual e em grupo. Além disso, a pessoa precisa estar motivada a parar de fumar e a mudar o seu estilo de vida.


A atuação multiprofissional é indispensável no controle do tabagismo. “O tratamento é multidisciplinar. A grande maioria das doenças precisa ser tratada por uma equipe multiprofissional. No caso do tabagismo, pneumologista, psicólogo, terapeuta ocupacional, fisioterapeuta para pacientes com algum grau de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) são fundamentais”, menciona Elie Fiss.


O pneumologista do Hospital Oswaldo Cruz não mencionou o farmacêutico, mas já se sabe o quão importante é sua participação na adesão a qualquer tipo de tratamento, medicamentoso ou não. Um exemplo são os serviços que podem ser prestados em salas farmacêuticas no controle do tabagismo: avaliação de dependência de nicotina e acompanhamento de fumantes que desejam parar de fumar.


Avaliação de dependência da nicotina


Nesse serviço, o farmacêutico avalia o estado geral de saúde do paciente e o nível de dependência de nicotina por meio de um questionário aplicado durante a consulta farmacêutica.


O profissional coleta e registra informações como problemas médicos e tratamentos em curso, exames clínicos, prescrições médicas, fatores desencadeantes relacionados ao tabagismo – como estresse, insatisfação pessoal, ansiedade, depressão, entre outros – e aspectos do hábito de fumar, como horários e quantidade de cigarros por dia.


Em seguida, com base nos dados coletados, atribui uma pontuação e classifica o grau de dependência em “muito baixo”, “baixo”, “médio”, “elevado” e “muito elevado”. Realiza orientações farmacêuticas e farmacoterapia e, se necessário, encaminha a um profissional especializado, como o pneumologista.


Acompanhamento de quem deseja parar de fumar


Mais completo que o primeiro, o serviço de acompanhamento está estruturado em seis consultas. Na primeira, o farmacêutico faz a avaliação do nível de dependência da nicotina e estabelece, juntamente com o paciente, o Dia D (Quit Day), ou seja, a data exata em que ele vai abster-se totalmente do uso do tabaco.


Na segunda consulta farmacêutica, que deverá ocorrer em 15 dias, o farmacêutico verifica se o paciente está apresentando algum sintoma de síndrome de abstinência da nicotina e qual sintoma seria: tontura, dor torácica, palpitações, desmaios são os mais comuns. Em caso afirmativo, o paciente deverá ser encaminhado para tratamento farmacológico.


Nessa segunda visita à farmácia, o paciente também deve ser orientado sobre os recursos que ajudam a sentir melhor durante o período de abstinência, como beber líquidos, chupar gelo e mascar balas, chicletes dietéticos e cristais de gengibre, fazendo o uso de substitutos para gratificação oral.


Durante esse acompanhamento, o paciente é orientado a anotar as recaídas, o dia e o número de vezes em que ocorreu. Além disso, terá a oportunidade de preencher um quadro com vantagens e desvantagens em fumar e de avaliar as situações vinculadas às recaídas, formulando estratégias para isso não mais acontecer.


Em todas as consultas, o farmacêutico avalia o nível de dependência da nicotina, para verificar se o grau está diminuindo, e realiza mais dois serviços: avaliação respiratória e avaliação de depressão.

Na sexta e última consulta, dependendo da resposta do paciente ao tratamento, recomenda-se atendimento médico especializado, frisando que o acompanhamento farmacêutico permanecerá até o fim do tratamento.


Importante destacar que o serviço de acompanhamento de pessoas que desejam parar de fumar é muito mais completo do que o descrito nesta reportagem, tendo sido destacados aqui apenas alguns aspectos do atendimento. O objetivo é ilustrar as muitas possibilidades que existem para uma sala de saúde no combate e controle do tabagismo.


Para farmácias e drogarias, os fumantes são um público em potencial, carente de apoio e orientação no grande desafio que é largar o cigarro. Os serviços de saúde mencionados acima podem ser bons para o negócio na medida em que fidelizam e são alternativas para aumentar a rentabilidade, cujas margens já são muito espremidas.


“A legislação proibitiva ajudou muito, e o fumante passou a ser uma exceção, mas ainda é necessário voltar a fazer as campanhas de conscientização, com uma atuação realmente efetiva da mídia”,

o pneumologista do Hospital Oswaldo Cruz.


Fica então a pergunta: por que não uma atuação mais efetiva também da farmácia e do farmacêutico?



26 visualizações0 comentário