• Viviane Massi

Como o estresse afeta as pessoas e de que forma a farmácia pode contribuir no tratamento

Cerca de 90% da população mundial sofre com o estresse, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, de acordo com dados divulgados pela Associação Internacional de Gerenciamento de Estresse Brasil (Isma-BR), 70% da população já apresentou ou possui sintomas de estresse, o que coloca o País na segunda posição no ranking dos povos mais estressados do mundo.


Os números, no entanto, são divergentes de uma pesquisa para outra, não sendo possível afirmar o nível exato de estresse entre os brasileiros. Há estudos, por exemplo, em que o Brasil nem chega a aparecer na lista dos dez países mais estressados do mundo, como é o caso do Relatório Global de Emoções de 2019, elaborado pelo Instituto Gallup, que mediu os níveis de estresse em 143 países.


Dados à parte, ninguém discorda que a qualidade de vida das pessoas foi fortemente afetada a partir de março de 2020, quando teve início a pandemia do novo coronavírus. Uma das consequências do isolamento social, do medo de se contaminar e dos problemas econômicos advindos da pandemia é o considerável aumento no nível de estresse do brasileiro.


Logo após a decretação da quarentena, o psiquiatra e professor Alberto Filgueiras, do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), iniciou uma pesquisa sobre o comportamento dos brasileiros durante o isolamento. Foram avaliadas 1,6 mil pessoas entre abril e junho de 2020, na chamada primeira onda. Os resultados, já publicados na Psychological Reports, importante revista americana, mostraram que os casos de depressão praticamente dobraram entre os entrevistados, enquanto as ocorrências de ansiedade e estresse tiveram aumento de 80%, nesse período.


“Percebemos que as pessoas com maior risco de contaminação – trabalhadores que tinham que sair de casa e pessoas na linha de frente – apresentaram mais indicadores de estresse em relação ao restante da população. Outro ponto interessante é que os empresários e as pessoas que trabalham no comércio também estavam entre as pessoas com estresse mais elevado, devido à falta de perspectivas em relação ao trabalho, risco de demissão, fechamento de lojas, entre outros fatores”, explica o psiquiatra.


O lado bom do estresse


De modo geral, o estresse acontece o tempo todo na vida das pessoas. Cada tipo de acontecimento gera um determinado nível de estresse. Sair da rotina para ir a uma consulta médica provoca baixo nível de estresse, assim como a mudança de um emprego para outro costuma gerar grau mais elevado de estresse.


“É impossível pensar numa vida sem estresse, porque a própria vida do ser humano é uma vida dinâmica. A OMS diz que 90% das pessoas no mundo têm sintomas de estresse. Eu diria que são 100%. O estresse em si não é um problema. Ele nos ajuda a nos prepararmos para o que está vindo, para a mudança. Trata-se de um mecanismo de defesa que nos prepara para lidar com uma situação inesperada”, explica Filgueiras.


No entanto, o estresse pode ser tornar patológico. O estudo do Instituto de Psicologia da UERJ, por exemplo, ignorou os sintomas do estresse cotidiano e concentrou-se naquilo que caracteriza um problema para a saúde. Mas quando é que o estresse deixa ser algo que nos ajuda em determinadas situações para se tornar uma condição que provoca danos à saúde?


O lado ruim do estresse


Assim como a depressão e a ansiedade, o estresse não tem cura, tem controle, pois é uma condição psicopatológica. O desafio dos profissionais de saúde é ensinar como controlar o estresse de tal maneira que não se torne patológico.


Segundo a psicóloga Regina Montelli, coordenadora do Núcleo de Stress, o estresse é uma reação do organismo muito importante para a sobrevivência, mas quando a reação de estresse ocorre cronicamente, seja por conta da necessidade de adaptação constante, seja pela presença e manutenção de situações estressoras, se torna nocivo, passando a ser um gatilho para doenças físicas ou emocionais.


Os sintomas clássicos de estresse patológico são confusão mental, dificuldade de identificar o que está acontecendo de forma clara e objetiva, irritabilidade muito elevada, alto grau de labilidade emocional – variação brusca nas emoções –, dificuldade de se concentrar, queda de produtividade no trabalho, entre outros.


Do ponto de vista físico, o corpo também emite sinais: tensionamento exagerado da musculatura, pescoço enrijecido, cãibras durante a noite e dores nas articulações ocasionadas pelo tensionamento – não confundir com dores musculares.


Não basta apresentar esses sintomas para se chegar ao diagnóstico de estresse, pois é preciso que a pessoa tenha passado por uma situação estressora. Além da pandemia, há outras causas, como perda do emprego, morte de familiares, acidentes, doenças graves, violência doméstica, entre outras. Alguns maus hábitos também contribuem para que o estresse se aloje: má alimentação, sedentarismo, abuso de bebidas alcoólicas e consumo excessivo de embutidos, industrializados e açúcar.


Burnout, pós-traumático ou agudo


De acordo com o psiquiatra Alberto Filgueiras, existem três tipos de estresse considerados patológicos: Síndrome de Burnout, Transtorno de Estresse Pós-Traumático e Transtorno de Estresse Agudo.


Segundo a OMS, a Síndrome de Burnout, um tipo de estresse cada vez mais recorrente, será incluída na próxima revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID), que começará a valer em 2022. Essa síndrome consiste em uma espécie de estresse crônico e grave relativo ao contexto de trabalho, caracterizado por esgotamento profissional, exaustão emocional, despersonalização e baixo sentimento de realização.


A produtividade a qualquer custo justifica o percentual de 32% dos mais de 100 milhões de brasileiros trabalhadores terem sido diagnosticados com Síndrome de Burnout, segundo a Isma-BR. “A síndrome aparece quando a pessoa não aguenta mais fazer o que está fazendo. É necessário haver descanso e equilíbrio entre vida pessoal e profissional, mas nem sempre ocorre dessa forma. Predomina a ideia de produtividade a qualquer custo, e o custo da alta produtividade humana é a saúde”, avalia Filgueiras.


De origem inglesa, o termo pode ser traduzido como “queimar-se por completo” e foi citado pela primeira vez em 1974 pelo psicanalista alemão Herbert Freudenberger (1926-1999), que caiu de cama com esgotamento físico e mental por trabalhar 12 horas durante o dia e, à noite, atender a mais de dez pacientes dependentes químicos em uma clínica de reabilitação.


Traumas e situações que provocam estresse


O Transtorno de Estresse Pós-Traumático geralmente está associado a um grande trauma na vida de uma pessoa. De acordo com a psicóloga comportamental Kelly Miranda, manifesta-se com intensas reações disfuncionais e desagradáveis que se iniciam com a exposição a um evento traumático, por exemplo, acidente de trânsito, violência sexual, situações aversivas no trabalho, luto, guerras.


Esse tipo de trauma causa grande impacto no sistema psíquico do indivíduo, podendo ocorrer em qualquer faixa etária. Entre os principais sintomas, destacam-se principalmente o medo de que o trauma se repita, seguido de lembranças que provocam aumento nos batimentos cardíacos, pesadelos frequentes, nervosismo, dificuldade para adormecer, explosões de raiva, pensamentos negativos, entre outros.


Por fim, uma pessoa também pode desenvolver o que se chama de Transtorno de Estresse Agudo, ocasionado por exposição prolongada a uma situação de estresse. “Um cenário eventual torna-se permanente, crônico, fazendo com que o indivíduo fique submetido a ele mesmo contra sua vontade. A pandemia é um exemplo, pois nos obrigou a ficar por mais de um ano isolados, vivendo de forma como que não gostaríamos. Esse tipo de estresse está associado a um acúmulo de situações que não se consegue resolver. A pessoa vai suportando até que corpo e mente param”, explica Filgueiras.


Como diagnosticar e tratar o estresse patológico


A psicóloga clínica especializada em Psicologia Hospitalar com atuação em avaliação de estresse, Stael de Toledo, vem observando aumento significativo no número de pacientes com queixas de estresse durante a pandemia.


Segundo ela, o diagnóstico de estresse psicológico se faz com um conjunto de informações que inclui a entrevista psicológica – ou anamnese –, a pesquisa direta de sinais orgânicos, como lesões de pele, alopécia, transtornos gastrointestinais, entre outros, e ainda com o auxílio de testes psicológicos específicos.


A entrevista, nesse contexto, tem um papel essencial ao investigar sobre bem-estar, condições físicas, qualidade de sono, condição emocional e mecanismos psíquicos de compensação do estresse”, explica Stael.


Segundo o psiquiatra Alberto Filgueiras, o padrão ouro de tratamento é afastar a pessoa da situação que gerou a condição de estresse. “Uma vez que essa pessoa esteja afastada da fonte de estresse – e há casos em que isso não é possível, o passo seguinte é atacar os sintomas físicos com psicoterapia e medicamentos, como ansiolíticos e a melatonina, que ajuda a pessoa a dormir com mais tranquilidade. Tudo depende do grau e do nível dos sintomas”, pontua.


Para Stael, é possível controlar o estresse sem medicamentos, mas não em todos os casos. “Não há que se alimentar uma repulsa às medicações, apenas é preciso que sejam prescritas com consciência e acompanhadas, ressaltando para o paciente que elas não representam uma solução plena e definitiva para essas questões”, complementa.


Tratamento multidisciplinar traz bons resultados O medicamento, muitas vezes, serve como ponte para que os efeitos da psicoterapia – sempre de médio a longo prazo – se sedimentem e possa, depois disso, ser dispensado. Outras vezes é essencial manter um tratamento medicamentoso em paralelo à psicoterapia de forma contínua. Em todas as situações, é necessário o trabalho multidisciplinar, essencial para se obter bons resultados.


“A terapia cognitivo comportamental, por exemplo, contribui com o tratamento ao introduzir técnicas que auxiliam na diminuição dos sintomas, aumentam as habilidades sociais e promovem uma mudança na forma como a pessoa interpreta a situação que está lhe causando estresse”, explica Kelly.


Entre as técnicas mais empregadas, destacam-se a psicoeducação, reestruturação cognitiva, respiração diafragmática, relaxamento muscular e progressivo, dessensibilização sistemática e prevenção a recaídas. Essas técnicas são treinadas com o paciente para que ele possa ser capaz de utilizá-las fora do contexto clínico.


A experiência de quem sentiu na pele os efeitos do estresse


Foi a terapia associada a medicamentos, fisioterapia e mudança radical na rotina que salvaram a vida da jornalista Lígia Favoretto. Em 2019, ela teve um apagão enquanto dirigia na Marginal Tietê, em São Paulo, em direção ao trabalho, e sofreu um grave acidente de carro. Na emergência, sendo atendida por um clínico geral, Lígia teve o primeiro diagnóstico: Síndrome de Burnout, confirmado logo depois por uma psicóloga.


“A síndrome foi provocada por excesso de trabalho, assédio moral, viajar todos os dias de Jundiaí para São Paulo e vice-versa para trabalhar, perdendo 4 horas do dia em trânsito, sem conseguir ter uma vida social. Eu não praticava atividade física e não tomava café da manhã por acordar às 4h30 para pegar o ônibus fretado”, conta.


A mente e o corpo de Lígia não suportaram tanta pressão. “Quando eu comecei a sentir muita falta de ar, palpitação, cansaço extremo, formigamento das mãos e falhas de memória, percebi que havia algo errado”, acrescenta. Mas, apenas depois do acidente, Lígia tomou a decisão de mudar as regras do jogo recuperar a saúde.


“A minha maior experiência é que precisamos ouvir o nosso corpo, rever escolhas que nos fazem abrir mão de uma vida pessoal, que nos privam do sono. Quando somos mais jovens, achamos que nunca nada irá nos acontecer, que falta de sono não fará mal, mas a conta chega. Além disso, não estar em ambientes tóxicos, convivendo com pessoas tóxicas, também é algo que percebo logo e me livro o mais rápido possível depois da crise”, reconhece.


Dificuldade para adaptação a mudanças pode gerar estresse


O comissário de bordo Cesar Galice foi diagnosticado com Síndrome de Burnout em 2007, logo depois que a Varig foi vendida para a GOL, na época, uma novata na aviação nacional. Mas os sintomas começaram bem antes disso, quando a Varig começou a dar os primeiros sinais de que algo não estava indo bem. Os pagamentos começaram a falhar, a malha começou a encolher, os voos internacionais tornaram-se raros, os benefícios foram desaparecendo, a pressão por produtividade aumentou.


Juntamente com a aquisição da Varig pela GOL, veio a reestruturação da companhia e a mudança de cultura. Os salários foram renegociados, e Cesar viu o dele ser reduzido em 77%. A escala na ponte área era imprevisível, e a jornada de trabalho estendia-se para além do que a saúde mental e física de Cesar poderia aguentar, tendo inclusive de se mudar do Rio para São Paulo.


“Eu ia dormir e, duas horas depois, acordava e ficava olhando para o teto, pensando em tudo o que estava acontecendo. Ganhei o apelido de ‘limão’, porque me tornei mal-humorado, extremamente irritado e nervoso com tudo e todos. Cheguei a ter um pico de pressão arterial quando me neguei a fazer um voo por excesso de jornada”, conta Cesar.

Convencido de que precisava de ajuda, Cesar procurou por um neurologista/psiquiatra e descobriu que estava com estresse laboral e precisava parar. Entrou de licença, tomou medicamentos, buscou apoio de amigos e familiares. Somente quatro anos depois, em 2011, Cesar recebeu alta e pode voar novamente.


“A síndrome foi provocada por fatores como medo de perder o emprego, falta de esperança, raiva de não receber todos os direitos trabalhistas e previdenciários, ter o salário reduzido, ter sido obrigado a me mudar de cidade e não ter as condições de trabalho as quais eu estava acostumado”, pontua Cesar. Segundo ele, os aprendizados foram muitos, entre eles, ter uma válvula de escape, fazer atividade física, praticar algum esporte ou apenas algo que tire o foco do problema.


Avaliação do estresse na farmácia


A oferta vem crescendo juntamente com a demanda. O segmento de farmácias e drogarias descobriu nesse cenário uma oportunidade de melhorar a qualidade de vida da população e, ao mesmo tempo, agregar valor ao negócio. A novidade é o serviço de avaliação de estresse nas salas farmacêuticas.


Nas salas de saúde vinculadas à franquia Ponto Care, esse serviço consiste na aplicação de um questionário com 24 perguntas relacionadas aos principais sintomas de estresse, entre eles, se o paciente tem dores de cabeça por tensão ou enxaquecas, se está cansado demais e com dificuldades para dormir, se sente pés e mãos frios e suados, se apresenta palpitações cardíacas, enfim, uma anamnese completa.


Ao fim da consulta, as respostas geram uma pontuação que varia de 4 a 30 pontos, sendo 4 uma condição de vida sem estresse e a partir de 30 um nível de estresse muito intenso. Nesse último caso, o farmacêutico conversa com o paciente e o orienta a procurar ajuda médica o mais rápido possível.


Esse serviço já está sendo oferecido por diversas drogarias, como Drogarias Búzios e Drogatur, no Rio de Janeiro; Drogaria Rio Branco, no Paraná; Minas Mais, em Minas Gerais; Coop Drogaria e Feliz Farma, em Santo André; e por milhares de outras farmácias Brasil afora. O empresário é livre para definir o valor do serviço, mas atualmente os franqueados estão praticando preços que variam de R$ 10 a R$ 23.


O farmacêutico Eduardo Abreu, que tem consultório farmacêutico independente desde 2016 no estado onde mora, Rio Grande do Sul, conta que, a partir de março de 2020, as principais queixas passaram a ser ansiedade, estresse, depressão, dor no corpo, perda de peso, problemas capilares e baixa imunidade, grande parte associada à pandemia de Covid-19.


Cada vez mais, o setor vem percebendo que apenas vender medicamentos não é mais suficiente para ganhar a preferência do consumidor. As pessoas necessitam de ter acesso a serviços de saúde com qualidade, frequência e a preços acessíveis. Portanto, a oportunidade de mercado existe e com grande potencial de retorno para a farmácia. O desafio é fazer bem-feito.

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