• Viviane Massi

Como a farmácia pode auxiliar no controle das dislipidemias e ainda aumentar sua rentabilidade


Os testes e exames de saúde são ferramentas indispensáveis na identificação de doenças e podem salvar vidas quando realizados antes do agravamento das condições clínicas do paciente. Entre eles está o exame de perfil lipídico, cuja análise é utilizada no diagnóstico e tratamento das dislipidemias que podem ser secundárias a patologias como diabetes, hipotireoidismo e disfunções renais e hepáticas.


No Brasil, os estudos epidemiológicos para a investigação são muito escassos, evidenciando uma baixa taxa de rastreamento, principalmente em âmbito da saúde pública. A inexistência de estudos que representem a população geral em qualquer parte do País se deve, principalmente, a duas razões: falta de recursos financeiros para investigações populacionais e carência de pesquisadores em epidemiologia das doenças crônicas não transmissíveis e seus determinantes.


Atualmente, o que se tem são dados da Pesquisa Nacional da Saúde (PNS), indicando que, no Brasil, há cerca de 18,4 milhões de brasileiros com o colesterol considerado alto, representando 12,5% da população. Essa estatística é considerada elevada por especialistas e indica que é uma doença muito frequente e preocupante, na maioria dos casos, sem diagnóstico ou acompanhamento multiprofissional.


“Considerando a relação direta entre as dislipidemias e as doenças cardiovasculares, sabemos que uma média aproximada de mais de 70% das mortes no Brasil são relacionadas às doenças crônicas, como dislipidemia, hipertensão e diabetes”, pontua Viviane Molinos, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP).


De acordo com ela, os eventos cardiovasculares foram responsáveis pelo maior custo referente às internações hospitalares no Sistema Único de Saúde (SUS), correspondendo a quase 30% das internações de idosos. “Obviamente, se tivéssemos a oportunidade de melhorar o tratamento, aumentar a conscientização da população e elevar os índices de diagnóstico, teríamos uma redução nesse percentual”, acrescenta a endocrinologista.


Perfil lipídico: indicações e benefícios ao paciente


As dislipidemias são doenças crônicas e assintomáticas, chamadas de doenças silenciosas. Essas condições as tornam mais perigosas, pois, na maior parte das vezes, a primeira manifestação é um evento cardiovascular grave ou mortal.


O exame é indicado principalmente para pessoas com mais de 40 anos e na presença de fatores de risco como obesidade, sedentarismo, gordura abdominal, diabetes, hipertensão arterial, tabagismo, entre outros, podendo ser feito em qualquer idade. Esse rastreamento do sangue quantifica diferentes frações lipídicas: colesterol total, HDL-C, LDL-C, Não-HDL-C e triglicerídeos. O resultado é expresso em mg/dL ou mmol/L.


“As dislipidemias fazem parte do cenário mais difícil da saúde pública: as doenças crônicas e assintomáticas, nas quais o diagnóstico e a adesão ao tratamento a longo prazo são o maior desafio. A importância de campanhas de prevenção e orientação da população sobre a importância dos níveis colesterol e sua associação à doença cardiovascular se torna cada vez mais importante”, analisa Viviane.


Por que se deve fazer o exame de forma periódica


O rastreamento do perfil lipídico é importante porque as alterações no metabolismo das lipoproteínas aumentam o risco para as doenças cardiovasculares, que são responsáveis por cerca de 20% de todas as mortes em indivíduos acima de 30 anos no Brasil, segundo dados do Instituto do Coração (InCor). A detecção precoce das dislipidemias pode, portanto, contribuir de forma efetiva para prevenir eventos coronarianos por aterosclerose.


No caso dos triglicérides, além do aumento de risco de doença arterial, também há aumento do risco de pancreatite. “Nesse rastreamento, podemos fazer o diagnóstico de dislipidemias primárias, com hipercolesterolemia genética isolada ou combinada com hipertrigliceridemia e dislipidemias secundárias, relacionadas à obesidade, sedentarismo, diabetes e maus hábitos de alimentação”, explica a endocrinologista.


Dados do Ministério da Saúde apontam que o SUS gasta em média R$ 1,3 bilhão anualmente com o tratamento ambulatorial e hospitalar das dislipidemias, custos esses que poderiam ser reduzidos com o diagnóstico precoce e a atuação conjunta de profissionais de várias áreas da saúde.


“A oportunidade de obter um tratamento multidisciplinar para as dislipidemias seria uma vitória para a saúde da população, com especialidades médicas unidas para abordar as melhores estratégias de tratamento medicamentoso. Seria muito positivo, além da prevenção e do tratamento das possíveis complicações relacionadas, contar com nutricionistas orientando o tratamento dietético do paciente e farmacêuticos auxiliando na triagem de pacientes com testes rápidos e orientações sobre os medicamentos”, defende Viviane, da SBEM-SP.


Farmácias cada vez mais oferecem o teste


O teste de perfil lipídico está entre os serviços farmacêuticos que uma sala de saúde pode oferecer para fins de acompanhamento ou diagnóstico do paciente. No primeiro caso, os testes de acompanhamento geram uma declaração de serviço farmacêutico, mas não emitam laudos, por isso não podem ser utilizados para fins de diagnóstico. No segundo, os testes são realizados em parceria com laboratórios clínicos e, portanto, vêm acompanhados de laudos completos, têm valor de diagnóstico e podem ser apresentados aos médicos para diagnosticar problemas de saúde.


“Não há nenhuma diferença entre os valores obtidos nos testes rápidos e naqueles que vêm acompanhados de laudos, pois ambos usam a mesma metodologia (enzimática) e forma de leitura (fotometria de reflectância)”, explica o farmacêutico Fábio dos Santos Pereira, responsável pela sala de saúde da rede Feliz Farma, de Santo André, na Grande São Paulo.

E foi justamente esse teste rápido de perfil lipídico realizado na farmácia que modificou e atualizou o tratamento de uma paciente da sala de saúde da rede Feliz Farma. Os resultados auxiliaram o médico na tomada de decisão quanto à alteração da prescrição, mantendo o controle da dislipidemia da paciente e melhorando sua qualidade de vida.


“Ao fazer a revisão dos medicamentos dessa senhora, percebemos que ela utilizava um medicamento para colesterol em alta concentração, responsável por uma reação adversa. Na ocasião, realizamos o teste de perfil lipídico e, em seguida, encaminhamos ao médico dela. Nos acompanhamentos posteriores, identificamos a redução da dosagem do medicamento, e o último teste feito na farmácia demonstrou o controle dos níveis de colesterol, porém sem mais problemas causados pelo medicamento”, conta Fábio, num exemplo clássico de como o acompanhamento farmacêutico faz diferença na vida de uma pessoa.


Teste de farmácia: facilidade de acesso e agilidade no resultado


A frequência dos testes pode variar de uma pessoa para outra dependendo de suas condições de saúde e uso de medicamentos para controle do colesterol. Mas o acompanhamento periódico do perfil lipídico é indicado para pacientes com dislipidemias crônicas, comorbidades – principalmente hipertensão e diabetes –, dislipidêmicos agudos devido a fatores pontuais, pacientes que consomem medicamentos que alteram valores diretamente e indiretamente por reação adversa e, por fim, por pessoas que nunca fizeram os testes.


De acordo com o farmacêutico Fábio, existem alguns benefícios diretos para os pacientes que optam por fazer o teste de perfil lipídico na farmácia. “O primeiro deles é justamente o rastreio quando o cliente não tem o costume de fazer esse exame de rotina. Quanto mais cedo forem tratadas as dislipidemias, melhores serão os resultados e menores as consequências agravantes”, destaca ele.


O segundo é a maior comodidade em fazer obter um resultado confiável em menos de 5 minutos após o teste, evitando a necessidade de buscar o pedido médico, ir ao laboratório, esperar dias pelo resultado e somente depois disso retornar ao consultório. “Caso os resultados estejam alterados, o cliente já sai da farmácia com o encaminhamento para o médico com o seu laudo anexado”, acrescenta Fábio.


O custo do teste é relativamente baixo em comparação aos procedimentos tradicionais, o que o torna mais acessível à população de baixa renda. Na sala de saúde da Neo Care, o teste custa, em média, R$ 50.


E, por fim, pacientes em tratamento podem ser melhor assistidos quanto à monitorização das metas terapêuticas, reduzindo as chances de abandono da terapia medicamentosa.


Como é o serviço de perfil lipídico na sala de saúde


O serviço começa com a apresentação dos objetivos e benefícios do teste para o paciente e das orientações sobre como será realizado. Importante destacar que as 12 horas de jejum deixaram de ser obrigatórias em 2016, de acordo com as novas diretrizes das Sociedades Brasileiras de Patologia Clínica (SBPC), Cardiologia (SBC) e Análises Clínicas (SBAC). Sendo assim, a coleta pode ser realizada independentemente do tempo em que o paciente se alimentou pela última vez.


No entanto, outras condições devem ser observadas no preparo para fazer o teste, como abster-se de álcool durante as 72 horas que antecedem a coleta de sangue, manter a dieta habitual e o peso por, pelo menos, duas semanas antes, não fazer nenhuma atividade física vigorosa nas 24 horas que antecedem o exame e informar os medicamentos utilizados.


No momento do atendimento, após a higienização das mãos, faz-se uma punção no dedo do cliente e retira-se 35 µl de sangue total capilar, pouco mais que uma gota. Esse material é colocado no equipamento específico, que, em 3 minutos, emite o resultado.

As frações de colesterol (HDL e LDL), assim como seu valor total e triglicerídeos, são informadas no sistema que classifica de acordo com os valores de referência. Em seguida, o paciente é orientado de acordo com os resultados. No fim deste artigo, você encontra duas tabelas com os valores referenciais preconizados pela Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC).


Serviço farmacêutico como vantagem competitiva


O sucesso da sala de saúde, seja na satisfação com o atendimento, seja na lucratividade com os serviços, vai depender basicamente de capacitação e processos, para que a equipe e a dinâmica de farmácia se adequem à oferta de atendimentos primários em saúde.


O engajamento da equipe talvez seja o fator primordial, pois os serviços começam bem antes do atendimento farmacêutico: eles têm início no balcão da farmácia, quando um cliente chega em busca de um medicamento. Nesse momento, a abordagem, a apresentação dos serviços e o poder de convencimento farão toda a diferença para uma sala de saúde ser procurada pelos clientes e rentável para o negócio.


“Do ponto de vista comercial, não há dúvidas de que oferecer serviços farmacêuticos aos clientes é um grande diferencial competitivo em relação aos concorrentes. A fidelização acontece quase que espontaneamente, sem contar a boa rentabilidade dos serviços”, finaliza Fábio.



Tabela I. Valores referenciais e de alvo terapêutico conforme avaliação de risco cardiovascular estimado pelo médico solicitante do perfil lipídico para adultos >20 anos.



Tabela II. Valores referenciais desejáveis do perfil lipídico para crianças e adolescentes.




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