• Viviane Massi

Campanha contra gripe está abaixo da meta do governo e rede privada pode contribuir

A pandemia trouxe de positivo a conscientização sobre o quanto a imunização é importante para salvar vidas. Porém, a procura pelas vacinas efetivas e previstas no Calendário Nacional de Imunização não está ocorrendo conforme o desejado para se voltar a ter boas coberturas vacinais de todos os grupos.


É o que está acontecendo com a 23ª Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe, iniciada em 12 de abril e ampliada para toda a população brasileira acima dos seis meses de idade no início de julho. A partir de agora, as secretarias de saúde podem decidir qual a melhor forma de ampliar a imunização em cada município.


Até o fechamento deste artigo, haviam sido vacinadas, aproximadamente, 39,5 milhões de pessoas, o que representa uma cobertura vacinal de apenas 46,3%, bem abaixo da meta inicial do Ministério da Saúde de imunizar 90% dos 79,7 milhões de brasileiros do grupo prioritário, público-alvo inicial da campanha.


Uma semana antes da expansão da campanha – quando esses dados estavam disponíveis para consulta –, nenhum estado brasileiro havia atingido a meta de 90%. Minas Gerais, Piauí, Paraíba e Sergipe estavam com o melhor desempenho, com 51% do público-alvo vacinado contra Influenza. Os demais estavam abaixo dos 50%. Em 2013, 90% do grupo prioritário foi vacinado, mostrando como a queda está acentuada.


A baixa cobertura vacinal não é exclusividade da vacina contra gripe. De acordo com dados do DATASUS, a partir de 2016, observa-se uma queda considerável no índice de pessoas vacinadas. Em 2015, o percentual era de 95,07%. Em 2019, essa cobertura atingiu apenas 45,65% da população brasileira. Se, em 2015, foram aplicadas 63 milhões de doses, em 2019, esse número caiu para 33,5 milhões. Os dados de 2020 ainda não foram divulgados.


“A procura por vacinas de rotina é cada vez mais baixa. E a pandemia agravou isso. A gente presenciou um colapso no sistema de saúde, com as consultas rotineiras, os checkups anuais e os atendimentos regulares sendo suspensos em postos de saúde. As pessoas acabam achando que a vacinação contra outras doenças, como a gripe, também está fora da prioridade do Ministério da Saúde”, avalia Mônica Levi, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).


A redução na cobertura vacinal é preocupante. “Pode impactar diretamente a saúde pública do País com o retorno de doenças erradicadas, como o sarampo. O aumento da demanda no atendimento primário vai sobrecarregar o SUS e exigir muito mais recursos para tratar as pessoas”, acrescenta o farmacêutico Klauber Menezes Penaforte, professor do curso Habilitação do Farmacêutico em Vacinação, do Instituto de Ciências, Tecnologia e Qualidade (ICTQ).


Vacinação contra Covid-19 impacta imunização contra Influenza


A vacinação contra a Covid-19 em andamento no País está impactando a meta do Ministério da Saúde por diversas razões, entre elas, a desinformação sobre quem e quando tomar a vacina contra gripe depois da imunização contra Covid-19 e a falta de uma comunicação mais efetiva do governo. O Ministério não reconhece esse impacto, mas ele é evidente no painel do Localiza SUS.


“São várias vacinas, produtores diferentes, laboratórios diferentes, que criaram intervalos diferentes entre as doses, confundindo as pessoas e os profissionais da saúde que atuam nos pontos de vacinação. Prestam informações equivocadas, muitas vezes, por falta de conhecimento ou por orientação errada que tenham recebido. O fato é que não está sendo um momento oportuno para conscientizar sobre as outras vacinas, como a da Influenza”, explica Mônica, da SBIm.


Para Penaforte, do ICTQ, a baixa adesão pode ser explicada, primeiro, pelo cenário de pandemia em que todos estão priorizando a vacinação contra o novo coronavírus e, indiretamente, temem pelas possíveis aglomerações em unidades básicas de saúde. “Temos que levar em conta também questões como o movimento antivacina, o medo de possíveis eventos adversos pós-vacinação e falta de uma campanha maciça de conscientização da população”, aponta.


Ajudaria muito se a vacinação contra Covid-19 fosse simultânea à da Influenza. Alguns países já estão admitindo essa simultaneidade, mas o Brasil, por precaução, optou por não fazer isso. “Há pessoas entendendo que devem, primeiro, tomar as duas doses da vacina contra Covid-19 para somente depois buscar imunização contra a gripe. Além disso, as vacinas da Pfizer e da AstraZeneca têm intervalos de 90 dias entre as duas doses. Então, os profissionais de saúde não avisam que o paciente pode voltar dentro de duas semanas para se vacinar contra a gripe”, pontua Mônica.


Os especialistas concordam que muitas informações e detalhes importantes não estão sendo adequadamente transmitidos nem pelas mídias, nem pelos profissionais da saúde que seriam responsáveis por fazer essas orientações chegarem às 38 mil salas de vacina existentes no Brasil. Dessa forma, os profissionais que estão na linha de frente não orientam corretamente quem chega para se vacinar contra Covid-19, convidando a pessoa para voltar e se vacinar contra gripe se fizer parte do grupo prioritário.


Covid-19 e Influenza: o que é importante saber


O Ministério da Saúde não indica a aplicação da vacina da gripe ao mesmo tempo em que a da Covid-19. A recomendação é que as pessoas tomem primeiro a vacina contra a Covid-19 e, depois de um intervalo mínimo de 14 dias, voltem ao posto para tomar a vacina contra a gripe.


Os que estão com suspeita de Covid-19 devem ficar em casa e esperar o período indicado para que possam tomar a vacina. Em relação aos que já contraíram o novo coronavírus, não existe nenhuma contraindicação para tomar a vacina contra Influenza.


“Quem teve Covid-19 deve se vacinar contra essa doença e contra a gripe. É importante frisar isso para a população. O histórico de doença prévia não muda as recomendações dos especialistas, porém deve-se manter o intervalor de 30 dias do início dos sintomas e vacinar se a pessoa estiver bem. Mesmo para quem não desenvolveu sintomas, mas se infectou, a gente considera esses 30 dias do primeiro PCR positivo. Essas pessoas precisam aguardar 30 dias, vacinar prioritariamente contra Covid-19, primeira dose, e duas semanas depois, se vacinar contra gripe”, orienta Mônica, da SBIm.


Vacinação contra Influenza na rede privada


No SUS, estiveram eleitos para receber o imunizante crianças entre 6 meses até as que não completaram 6 anos de idade, gestantes, puérperas – mulheres com filhos até 40 dias –, povos indígenas, trabalhadores da saúde, idosos e professores.

Após o fim da campanha na rede pública, clínicas e farmácias seguem vacinando todas as pessoas a partir de seis meses de vida. Na rede privada, não há público prioritário. Todos podem se vacinar contra Influenza.


Leia também: Vacinação - serviço como diferencial competitivo para a farmácia


Atualmente, existem cerca de 3 mil clínicas privadas de vacinação em todo o Brasil. Juntam-se a elas para reforçar o número de locais onde a população pode se vacinar as farmácias e drogarias com salas farmacêuticas estruturadas e documentação regularizada.


De acordo com a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), as grandes redes já colocaram em operação mais de 4,5 mil salas e consultórios farmacêuticos. Não há dados oficiais sobre as farmácias independentes, mas sabe-se que o número de salas farmacêuticas em atuação no Brasil é muito maior.


Entretanto, as pessoas ainda não enxergam a farmácia como um ponto de imunização, pois desconhecem quais serviços de saúde são oferecidos nas salas farmacêuticas. A partir do momento em que os estabelecimentos se fortalecerem na atividade, esse cenário tende a mudar.


Parcerias público-privadas ajudam a tornar as salas conhecidas


Em vários municípios brasileiros já existem parcerias público-privadas em que as vacinas são aplicadas gratuitamente nas farmácias. “Em 2020, na cidade de Porto Alegre, quase 20% de todas as doses contra Influenza foram aplicadas em farmácias por meio de parcerias com a prefeitura. Na campanha atual, existem municípios onde a vacinação está sendo realizada somente em farmácias para evitar ‘confrontos’ com a campanha de vacinação contra a Covid-19”, conta Penaforte.


A Prefeitura do Rio de Janeiro também fez parceria com quatro redes de farmácias, que, juntas, de 27 de abril a 30 de junho, imunizaram 30.493 pessoas contra a gripe. O coordenador farmacêutico da rede A Nossa Drogaria, Maurício Matos, destaca a importância de as farmácias terem participado da campanha: “Foi muito gratificante para nós fazermos parte desse excelente resultado. Imunizamos quase 14 mil pessoas, o que é um marco para nós. Sabemos que estamos passando por um momento delicado de pandemia, e não deixamos de realizar o nosso papel, que é contribuir para promover saúde e o bem-estar da população”.


Ricardo Valdetaro, farmacêutico e proprietário da Farmácia do Leme, comenta a experiência: “Foi maravilhoso por diversos aspectos, entre eles o fato de as farmácias pegarem a prática da vacinação e a facilidade que a população teve de ir às farmácias em vez de procurar as unidades de saúde. A parceria com o município foi muito bacana, e espero que possamos ajudar em outras campanhas. Além disso, tivemos a oportunidade de caminhar para uma fidelização de público e para outros tipos de vacinação no futuro”, disse ele.


Em 2021, a Prefeitura do Rio não repetiu a parceria, mas o serviço continua disponível na rede privada. Apesar da baixa procura, uma alternativa é incrementar a divulgação para a comunidade local. Mesmo não sendo gratuita, há pessoas que têm condições de pagar. A vacina trivalente está custando entre R$ 60 e R$ 80; e a tetravalente, em torno de R$ 80 e R$ 120.


Para oferecer o serviço, a farmácia deve seguir a legislação em vigor, principalmente a RDC 197/17, da Anvisa, que regulamente a atividade no segmento. Basicamente, é necessário ter licença sanitária do município para realização de serviços farmacêuticos e de vacinação, possuir registro no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) e ter profissional farmacêutico habilitado para o serviço de vacinação em curso credenciado pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF).


Os cursos habilitam os farmacêuticos para o serviço de vacinação. O conteúdo programático é estabelecido pela Resolução 654/18, do CFF. Após o treinamento, o farmacêutico deve se dirigir ao seu conselho de classe e solicitar a validação da habilitação.


O potencial das farmácias é enorme. Com as estratégias certas, os serviços se tornarão mais conhecidos, e a população passará a confirmar ainda mais no trabalho do farmacêutico. Para o SUS, significa menos demanda e equilíbrio das contas públicas; para a população, mais qualidade de vida; e para a farmácia, mais lucratividade.





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