• Viviane Massi

Baixa adesão ao tratamento da hipertensão: como a farmácia pode contribuir?



A pandemia do novo coronavírus acendeu um alerta entre pessoas hipertensas. Alguns estudos, apesar não conclusivos, indicaram maior risco de agravamento e morte por Covid-19 em indivíduos que apresentam doenças pré-existentes, como diabetes, hipertensão e outras doenças cardiovasculares.


Essa possibilidade tem sido levada a sério por pesquisadores, profissionais da saúde e entidades ligadas ao tema. A Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH), por exemplo, realizou, em abril, uma live sobre os cuidados que se deve ter com a pressão arterial em tempos de pandemia. O evento online demonstra que há sim com o que se preocupar.


Em entrevista ao blog da Ponto Care, o presidente da SBH, o médico Luiz Bortolotto, explica que a pressão arterial está relacionada a um processo inflamatório crônico e subclínico, o que poderia tornar as pessoas mais vulneráveis a infecções. “No entanto, não há evidências clínicas de que hipertensos têm maior predisposição à Covid-19. O que elas nos mostram é que os hipertensos não controlados e aqueles com mais consequências da hipertensão – insuficiência cardíaca, doença renal ou acidente vascular cerebral – correm maior risco de casos graves de Covid-19”, observa o médico.


O cardiologista e especialista em Hipertensão Arterial do HCor, Celso Amodeo, concorda e afirma que a hipertensão descontrolada pode agravar a Covid-19, porque a doença ativa processos inflamatórios e trombóticos, os quais, com aumento da pressão arterial, podem desencadear doenças cardiovasculares. E acrescenta: “Depois de terem Covid-19, as pessoas podem desenvolver um quadro de hipertensão decorrente do excesso de corticoides, já que eles provocam retenção hidrosalina com consequente aumento da pressão. Esse cenário, associado ao sedentarismo, ganho de peso e estresse podem elevar a pressão arterial”.


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Cenário da hipertensão no Brasil


No dia 17 de maio, celebra-se o Dia Mundial da Hipertensão. No Brasil, o Dia Nacional de Prevenção e Combate à Hipertensão Arterial é comemorado quase um mês antes: 26 de abril. Em ambas as datas, entidades de saúde aproveitam a ocasião para promover a educação em saúde, levando informações sobre os riscos da hipertensão não controlada.


Em 2020, o Ministério da Saúde divulgou os dados mais recentes sobre o perfil do brasileiro em relação às doenças crônicas mais incidentes no País: 7,4% têm diabetes, 24,5% têm hipertensão e 20,3% estão obesos. Os dados foram coletados pela pesquisa Vigitel 2019 (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) e mostraram que, entre 2006 e 2019, a prevalência de hipertensão arterial entre a população brasileira subiu de 22,6% para 24,5%, chegando a acometer 59,3% dos adultos com 65 anos ou mais, sendo 55,5% dos homens e 61,6% das mulheres.


Os dados podem variar de uma pesquisa para outra dependendo da metodologia aplicada. Segundo Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, a proporção de indivíduos de 18 anos ou mais que referiram diagnóstico de hipertensão arterial, no Brasil, foi de 23,9% em 2019, contra os 21,4% de 2013, o que corresponde a 38,1 milhões de pessoas.


A proporção de pessoas que referiram diagnóstico de hipertensão aumentava com a idade. Enquanto entre as pessoas de 18 a 29 anos essa prevalência é de apenas 2,8%, entre as aquelas de 30 a 59 anos, 20,3%; 60 a 64 anos, 46,9%; 65 a 74 anos, 56,6%; e, por fim, entre a população com 75 anos ou mais, a incidência da hipertensão é de 62,1%.


O que é hipertensão arterial e como se manifesta


De acordo com as Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial, atualizadas em 2020, a hipertensão arterial é uma doença cardiovascular crônica não transmissível definida por níveis pressóricos elevados em que os benefícios do tratamento medicamentoso superam os riscos de complicações mais graves.


Trata-se de uma condição multifatorial que depende de fatores genéticos/epigenéticos, ambientais e sociais, caracterizada por elevação persistente da pressão arterial, ou seja, pressão arterial sistólica maior ou igual a 140 mmHg e/ou pressão arterial diastólica maior ou igual a 90 mmHg, medida com a técnica correta em, pelo menos, duas ocasiões diferentes e na ausência de medicamento anti-hipertensivo.


As Diretrizes aconselham, quando possível, validar esses valores pela avaliação da pressão arterial fora do consultório por meio da Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA), da Monitorização Residencial da Pressão Arterial (MRPA) ou da Automedida da Pressão Arterial (AMPA).


Por se tratar de condição frequentemente assintomática, a hipertensão arterial costuma evoluir com alterações estruturais e/ou funcionais em órgãos como coração, cérebro, rins e vasos sanguíneos. Ela é o principal fator de risco modificável com associação independente, linear e contínua para doenças cardiovasculares, doença renal crônica e morte prematura. Associa-se a fatores de risco metabólicos para as doenças dos sistemas cardiocirculatório e renal, como dislipidemia, obesidade abdominal, intolerância à glicose e diabetes.


Fatores de risco mais comuns


Entre os principais fatores de risco para a hipertensão arterial estão: genética, idade, sobrepeso/obesidade, ingestão de sódio e potássio, sedentarismo, condições socioeconômicas, entre outros.


Segundo o documento que reúne as Diretrizes, a idade é um fator relevante. Em torno de 65% dos indivíduos acima dos 60 anos apresentam hipertensão arterial. E deve-se considerar a transição epidemiológica que o Brasil vem sofrendo, com um número ainda maior de idosos acima dos 60 anos nas próximas décadas, o que acarretará um incremento substancial da prevalência de hipertensão arterial e de suas complicações.


O fator sobrepeso/obesidade contribui consideravelmente com a elevação da pressão arterial. “Apesar de décadas de evidências inequívocas de que a circunferência da cintura fornece informações independentes e aditivas ao índice de massa corpórea para predizer morbidade e risco de morte, tal medida não é rotineiramente realizada na prática clínica. Recomenda-se que os profissionais de saúde sejam treinados para realizar adequadamente essa simples medida e considerá-la como um importante sinal vital na prática clínica”, diz o documento que traz as Diretrizes.


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Atuação multiprofissional no controle da hipertensão


A hipertensão arterial é uma doença de alta prevalência entre a população, de fácil diagnóstico e facilmente tratada, porém de difícil controle devido à baixa adesão ao tratamento. Segundo as Diretrizes Brasileiras, a falta de adesão ao tratamento é frequentemente definida quando os hipertensos fazem uso de menos de 80% dos medicamentos prescritos. No entanto, pode variar ao longo de um contínuo de zero e até ultrapassar 100% naqueles que usam mais do que foi prescrito, o que também se considera não adesão ao tratamento.


“Vale destacar que adesão é tratamento medicamentoso e não medicamentoso, aquilo que é prescrito e o que de fato é feito pelo paciente, como uma dieta específica e atividade física, não apenas medicamento”, analisa Bruno Gedeon de Araújo, farmacêutico no Hospital Universitário de Brasília (HUB) e professor com mestrado em Gerontologia.


Em 2010, Bruno foi o primeiro farmacêutico da capital federal a participar da primeira turma de Residência Multiprofissional em Atenção Cardiopulmonar do HUB, também um dos primeiros programas de residência do Brasil, o que faz do farmacêutico um dos maiores especialistas em assistência farmacêutica a pacientes hipertensos. Foi ele quem implantou, no ambulatório do hospital, a triagem dos pacientes com hipertensão arterial que seriam atendidos em seguida pela médica cardiologista.


“Comecei a estudar as Diretrizes e descobri que muitos pacientes não tomavam todos os medicamentos que eram necessários. Passei a comentar nos prontuários, destacando as possíveis razões para a falta de adesão e fazendo sugestões de mudança no tratamento medicamentoso. Depois da consulta, os pacientes passavam novamente por mim, para que eu pudesse orientá-los sobre como usar os medicamentos”, relembra. O serviço no ambulatório do HUB funciona até hoje, e o setor de cardiologia faz questão de ter farmacêutico na equipe.


No entanto, o reconhecimento sobre a importância do farmacêutico no âmbito da atuação multiprofissional ainda é pouco difundida. Para se ter uma ideia, as Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial, principal documento sobre o assunto, no capítulo “Equipe Multiprofissional”, mencionam os profissionais médico, enfermeiro, nutricionista e educador físico. São descritas ações específicas para cada profissional, menos para o farmacêutico. Ele é mencionado apenas no quadro “Estratégias de atuação da equipe multiprofissional centradas no paciente”. A contribuição do farmacêutico na adesão também está minimizada no capítulo “Adesão ao Tratamento Anti-Hipertensivo”, sendo citada uma única vez e de forma superficial.


Questionado sobre isso, o presidente da SBH diz que: “No texto, o farmacêutico não foi destacado individualmente como outras profissões provavelmente por falta de maior participação da farmácia clínica em nosso País. Nesse sentido, a SBH está promovendo a integração farmacêutica e irá criar o Departamento de Farmácia para maior participação na sociedade”. Sinal de novos tempos.


Como a farmácia pode contribuir para melhorar a adesão


Um estudo nacional realizado na atenção primária à saúde mostrou que a taxa de controle da hipertensão arterial variou de 43,7% a 67,5%. Os motivos para isso são diversos, mas um dos fatores de maior peso nesse cenário é a falta de adesão ao tratamento por diferentes razões, entre elas, o fato de ser uma doença silenciosa, a não ser que se complique para um infarto ou uma insuficiência cardíaca. Sem sintomas, as pessoas deixam de ir ao médico e ficam expostas ao risco.


Outra razão é que o tratamento exige uma mudança comportamental. “Mudar estilo de vida é muito difícil, pois requer a mudança de um modelo mental estabelecido. É preciso haver motivação suficiente, e doença sem sintoma não motiva. Em muitos casos, a motivação é uma situação de quase morte, mas nesse caso a hipertensão pode deixar sequelas e comprometer a qualidade de vida do paciente”, analisa Bruno Gedeon.


Para o farmacêutico, um dos papéis da farmácia é viabilizar o acesso. “Se o paciente não consegue ter acesso ao medicamento, ele não vai tomar. A Farmácia Popular é um grande aliado, mas é importante que a farmácia comunitária consiga ofertar medicamentos a custos mais baixos. Temos que afastar a ideia de que o paciente, se tiver dinheiro, vai pagar qualquer valor. Não é assim. A gente pode até gastar para comer fora e viajar, mas quase ninguém gosta de pagar R$ 100 por um medicamento”, opina.


Segundo ele, o farmacêutico da drogaria deveria avaliar os medicamentos que o paciente pode usar sempre pensando em manter a eficácia, mas reduzindo o custo o máximo que puder. “O empresário tem que pensar que não necessariamente o que é mais caro é o que tem maior margem de lucro. E há outro ponto importante: a fidelização. Se o paciente vai na minha farmácia e eu consigo resolver o problema dele, ele vai voltar, lembrando que esse problema pode ser monetário, uma reação adversa, uma prescrição mal compreendida, uma simples dúvida”, defende.


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Acompanhamento e aferição de pressão arterial


As reações adversas provocadas pelos anti-hipertensivos também são apontadas como um dos principais motivos para a baixa adesão ao tratamento. Costumam não ser graves, mas atrapalham a qualidade de vida do paciente. Por exemplo, o betabloqueador causa redução da libido, podendo provocar impotência sexual. Os diuréticos, em idosos, podem gerar incontinência urinária. “Se o farmacêutico não perguntar, o paciente não vai contar, porque é constrangedor. Então, é papel do farmacêutico acompanhar os pacientes hipertensos que são clientes da farmácia, avaliando o grau de adesão e as possíveis reações adversas, podendo inclusive sugerir a troca de um medicamento por outro”, sugere Bruno.


O serviço de aferição de pressão oferecido nas salas de saúde é também fundamental para ajudar o paciente a manter os níveis pressóricos controlados. “É uma atividade clínica de rastreamento em saúde prevista pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF) para identificar doenças ainda não diagnosticadas ou falta de eficácia de um tratamento em curso”, lembra o farmacêutico.


Antes de realizar o serviço, o farmacêutico deve fazer uma anamnese para obter algumas informações importantes, como saber se o paciente tem alguma doença diagnosticada, histórico familiar de pressão alta, última vez em que foi ao médico, se faz uso de algum anti-hipertensivo: tudo isso antes de aferir, para que se possa interpretar melhor os dados. Dessa forma, será possível saber se é o caso de um paciente já hipertenso, controlado ou não, ou um primeiro episódio de pressão elevada.


Recomenda-se manter o paciente sentado por, pelo menos, cinco minutos antes de realizar o serviço, principalmente se ele vier de uma atividade física, e de preferência pela manhã. Em caso de alteração na pressão arterial, o farmacêutico deve orientar o paciente para que procure o serviço de saúde mais próximo, pedindo que retorne dentro de alguns dias para saber se é algo rotineiro ou isolado.


Em geral, um serviço de aferição de pressão arterial custa muito pouco, mas é um diferencial que pode atrair novos clientes, fazendo o estabelecimento ganhar em volume de atendimentos. E não se esqueça de que pacientes hipertensos fazem uso contínuo de medicamentos e, justamente por isso, precisarão voltar mais vezes à sua farmácia.


Considerando que um dos principais fatores de risco para a hipertensão é a idade e que a população brasileira está envelhecendo, cuidar de pacientes hipertensos, além de melhorar a qualidade de vida das pessoas, é sim um bom negócio para a sua farmácia.




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