• Viviane Massi

Atuação farmacêutica no tratamento das condições clínicas autolimitadas

Você, farmacêutico, já ouviu falar em condições clínicas autolimitadas? Elas também são conhecidas como transtornos menores. Entre os exemplos de problemas autolimitados estão espirro e congestão nasal, dor lombar, dor de garganta, dismenorreia, febre, dor de cabeça, azia e má digestão, queimadura solar, constipação, hemorroidas, diarreia e tosse. Segundo a Resolução 585/2013, do Conselho Federal de Farmácia (CFF), “são enfermidades agudas de baixa gravidade e breve período de latência, que desencadeiam reações orgânicas as quais tendem a cursar sem danos para o paciente”.


As condições clínicas autolimitadas podem ser detectadas e tratadas pelo farmacêutico clínico por meio da consulta e da prescrição farmacêutica. Em geral, são prescritas medidas não farmacológicas e MIPs, pois não exigem prescrição médica. No entanto, a prática demanda uma série de cuidados que devem ser adotados pelo profissional, pois aquilo que, a princípio, é um transtorno menor pode evoluir para outra condição ou não ser solucionado com a abordagem inicial, necessitando de encaminhamento ao médico. Por isso, seguir protocolos ou guias de prática profissional é fundamental para a assistência adequada ao paciente.


Pensando nisso, o Grupo de Trabalho Permanente do CFF publicou o documento Algoritmos de Prática Clínica, estruturado para guiar a anamnese que o profissional vai realizar mediante a queixa do paciente. Em cada um dos 13 algoritmos apresentados no material, o farmacêutico encontra as perguntas que deve fazer durante a anamnese, os sinais e sintomas que indicam ser um problema de saúde autolimitado e as características que sugerem a necessidade de encaminhar o paciente a outro profissional ou serviço de saúde, tudo em esquemas gráficos e ilustrativos que facilitam a leitura e a interpretação das informações.


Para cada algoritmo, há também uma tabela com os principais medicamentos disponíveis na farmácia comunitária, com posologia, situações especiais, contraindicações e orientações de uso. E o guia traz ainda um resumo dos tratamentos não farmacológicos e farmacológicos indicados para a gestão da condição do paciente identificada durante a anamnese, considerando o contexto de prescrição farmacêutica, assim como a avaliação dos resultados, uma etapa importante do processo, que vai determinar se o paciente precisa ou não ser encaminhado a um médico.


Autocuidado e automedicação como processos desejados pelo sistema de saúde


De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e outros documentos internacionais, é desejável que as pessoas pratiquem o autocuidado, ou seja, que tenham uma atitude ativa e responsável em relação à própria saúde, visando à sua qualidade de vida, 24 horas por dia, sete dias por semana, por meio de hábitos de higiene pessoal, nutrição e prática de atividades físicas. O reconhecimento de estado alterado de saúde é parte desse autocuidado e pode ser manejado com automedicação responsável, segundo a organização.


De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Medicamentos Isentos de Prescrição (Abimip), muitas vezes, no processo do autocuidado, talvez haja a necessidade de se ter auxílio de algum medicamento para ajudar a combater sintomas simples e transitórios, provocados pelos transtornos menores. Na visão da entidade, empoderar é essencial para que a pessoa possa discernir o que faz bem ou mal para a sua vida. E um indivíduo esclarecido representa um país mais saudável e desenvolvido.


Além de estimular uma atitude responsável pela própria vida, o autocuidado também é uma forma de desafogar o sistema de saúde. No atendimento primário à saúde, por exemplo, muitos problemas são autolimitados. A Classificação Internacional de Atenção Primária (CIAP2), utilizada no Sistema Único de Saúde (SUS), tem um capítulo para classificar sinais e sintomas. A princípio, esses sinais e sintomas são manifestações clínicas que o corpo resolve sozinho ou que, em um primeiro momento, o parecem ser – as tão famosas "viroses" –, requerendo acompanhamento da evolução do quadro clínico.


“O autocuidado é desejado pelos sistemas de saúde mundiais, porque se todo paciente que tiver uma dor de cabeça procurar atendimento médico, o sistema pode colapsar. Um exemplo é o Pharmacy First, do NHS, no Reino Unido. Sabemos que não há condições de atender a todas as pessoas que tenham uma queixa de saúde. Por isso, o paciente por si só, e sobretudo com a ajuda de outro profissional da saúde, como o farmacêutico, pode e deve fazer o autocuidado de condições que não são graves”, defende Angelita C. Melo, farmacêutica, professora de Farmácia Clínica na Universidade Federal de São João Del-Rei e doutora em Saúde Pública.


Por outro lado, ao adquirir o conforto para as suas condições autolimitadas, o paciente não deve colocar a vida dele em risco. Por isso, a OMS diz que a automedicação tem que ser responsável, ou seja, aquela que acontece sob a orientação de um profissional da saúde, de preferência o farmacêutico, devido ao conhecimento terapêutico que ele detém.


“Assim, na automedicação responsável como parte do autocuidado, é possível o paciente selecionar o melhor tratamento para si, minimizando o risco de agravamento de condições pré-existentes ou o mascaramento da progressão da condição. Nesse sentido, oferece conforto a ele, diminuindo sinais ou sintomas e os riscos do uso de medicamentos”, acrescenta Angelita.


Benefícios do autocuidado orientado pelo farmacêutico


Para Daniel Jesus, farmacêutico especialista e mestre em Farmacologia e Gestão, Pesquisa e Desenvolvimento em Tecnologia Farmacêutica e professor de Farmácia Clínica do ICTQ, a consulta farmacêutica e a prescrição de MIPs podem trazer vários benefícios para o sistema de saúde, entre eles, diminuição substancial de custos para atendimento secundário e terciário; otimização de recursos governamentais; conforto para os usuários, que têm mais qualidade de vida; e proximidade do paciente com um profissional de saúde de fácil acesso.


“Para que o paciente faça um autocuidado pleno, com consciência e segurança, o farmacêutico se faz indispensável e está qualificado para garantir a opção terapêutica mais adequada e eficaz após avaliação do quadro clínico. É importante reforçar que os MIPs são isentos de prescrição médica, porém não são isentos de orientação para o seu uso”, ressalta Daniel.


Na atenção primária do sistema público de saúde, o farmacêutico ainda não alcançou o status de profissional indispensável ao tratamento de condições clínicas autolimitadas, dedicando-se quase sempre ao trabalho burocrático relacionado ao controle dos medicamentos.


“Infelizmente, poucas prefeituras usam a atenção e a prescrição farmacêutica para distúrbios autolimitados. Cada município implanta a política de atenção básica que lhe é mais conveniente. Os diversos serviços que a farmácia clínica pode oferecer, como acompanhamento farmacoterapêutico, manejo de problemas de saúde autolimitados, educação em saúde, revisão da farmacoterapia, rastreamento em saúde, entre outros, são pouco valorizados. Esse tipo de atuação farmacêutica ocorre mais no setor privado e muito pouco no sistema público de saúde”, critica Daniel.


Farmácia como primeira opção do paciente


Outros países estão mais evoluídos do que o Brasil nos quesitos autocuidado e tratamento de condições clínicas autolimitadas. Um exemplo é o Reino Unido, onde existe o Pharmacy First, criado pelo NHS, United Kingdom National Health Service, sistema de saúde local. O programa dissemina a informação de que os farmacêuticos são especialistas altamente treinados em medicamentos e encoraja todos a buscar a farmácia comunitária como primeira escala para todas as doenças menores e condições clínicas comuns específicas.


O Pharmacy First – Farmácia Primeiro, na tradução para o Português – representa acesso rápido a um local de aconselhamento e tratamento para condições clínicas autolimitadas. “Se tiver uma doença ligeira, a farmácia é o primeiro lugar onde deve ir para obter um conselho. Normalmente, você não precisa de uma consulta e pode ir a qualquer farmácia. O seu farmacêutico pode aconselhá-lo sobre uma doença leve e medicamentos, se achar que você precisa”, afirmam os sites oficiais que divulgam o serviço.


“Nos países desenvolvidos, com os melhores sistemas de saúde, como Reino Unido e Canadá, todos têm algum tipo de programa que estimula a população a primeiro procurar o farmacêutico. Ele avalia a queixa e, se for autolimitada, prescreve o primeiro tratamento e continua a avaliar o paciente. Se resolver, o paciente não precisa procurar a unidade de saúde. Se não resolver, é porque aquilo que parecia ser uma manifestação autolimitada é, na verdade, um problema mais grave”, reforça Angelita.


No Pharmacy First, os farmacêuticos podem dar conselhos e tratamento, se necessário, a doenças menores como acne, alergias, pé de atleta, dor lombar, nariz entupido, úlceras na boca ou herpes labial, prisão de ventre, tosse, cistite em mulheres, diarreia, dor de ouvido, eczema, dor de cabeça, piolhos, hemorroidas, rinite alérgica, cera de ouvido, conjutivite, queimaduras, candidíase vaginal, indigestão, entre outras condições clínicas.


Anamnese e prescrição farmacêutica nas condições clínicas autolimitadas


A partir dos guias, dos algoritmos e de todo o material disponível, os farmacêuticos capacitados em farmácia clínica têm plenas condições de identificar as condições clínicas autolimitadas, propor o tratamento, acompanhar os resultados e fazer o encaminhamento quando necessário. Interessante observar que a anamnese farmacêutica para um transtorno menor não se difere da consulta médica tradicional, em que, na maioria das vezes, o médico prescreve um tratamento com base em um diagnóstico feito a partir da avaliação dos sintomas.


“Nem sempre, o médico pede um exame de fezes, por exemplo, para uma queixa de diarreia. Mas, se o paciente não melhorar, pode ser que o médico solicite esse exame. A partir daí, o tratamento passará a ser com base num diagnóstico etiológico. O que estou querendo dizer com isso? Que a primeira consulta com o médico é semelhante à consulta farmacêutica: fazem as mesmas perguntas e com base nos mesmos sintomas prescrevem o tratamento. Apenas o segundo momento, quando se solicita um exame, é exclusividade médica; o primeiro, não”, argumenta Angelita.


A prescrição farmacêutica foi estabelecida pela Resolução 585/2013 e regulamentada pela Resolução 586/2013, segundo a qual prescrever é uma ação de recomendar algo ao paciente, que pode ser uma opção terapêutica, serviços farmacêuticos ou encaminhamento a outros profissionais ou serviços de saúde. Portanto, a prescrição farmacêutica não está associada apenas a prescrever medicamentos.


Walleri Reis é farmacêutica e coordena a Farmácia Escola da Universidade da Paraíba, além de ser membro do Grupo de Trabalho de Educação Permanente e coordenadora do Projeto Cuidado Farmacêutico, que engloba os cursos Cuidado Farmacêutico e Prescrever, do CFF.

“A prescrição farmacêutica é um processo, uma maneira de responsabilizar o farmacêutico por uma atividade que sempre existiu na farmácia. Não basta prescrever dipirona 1 grama de 8 em 8 horas. Se o farmacêutico estiver encaminhando o profissional a outro especialista, por exemplo, precisa escrever ‘Encaminho João da Silva, 48 anos, que procurou a farmácia com dor de cabeça, associada a tais e tais sintomas. Solicito avaliação diagnóstica porque em tantos dias a dor não cessou’, ou seja, detalhar o atendimento com o máximo de informações que tiver em mãos”, destaca a farmacêutica.


Na universidade e no CFF, Walleri trabalha na capacitação dos profissionais para atuação na área clínica e acredita no potencial do farmacêutico para realizar essa atividade. “O que a gente quer é que o farmacêutico esteja preparado para avaliar quais casos são autolimitados e quais precisariam de encaminhamento. O que posso dizer é que formo os meus alunos para que eles desenvolvam estas habilidades: receber as pessoas, avaliar os casos e identificar aqueles que devem ser encaminhados. Como em toda profissão, existem lacunas, mas a gente já evoluiu muito nos últimos anos”, admite.


A identificação dos casos que precisam de encaminhamento depende de como o farmacêutico avalia os resultados do tratamento proposto. “Ele precisa saber se o paciente melhorou. O médico nunca finaliza a consulta dele sem estabelecer em quantos dias o paciente voltará para o retorno. E o farmacêutico precisa fazer o mesmo, de forma escrita, na prescrição que o paciente leva para casa. Se não retornar, está na responsabilidade do paciente e não do farmacêutico”, completa Angelita.


Medicamentos tarja azul


Tramita, no Congresso Nacional, uma proposta do deputado Eduardo Bismarck, do PDT pelo Ceará, criando a categoria de medicamentos com tarja azul, que poderiam ser prescritos por farmacêuticos. Seria classificado como tarja azul o remédio tarja vermelha sem retenção de receita que possuir, no mínimo, 70% dos critérios estabelecidos para os MIPs.


No entanto, o PL 5.443/2019 está parado e não há perspectivas de avanço no curto prazo.

Essa proposta vem ao encontro das discussões sobre a necessidade de existir uma terceira lista de medicamentos, a ser utilizada e prescrita por farmacêuticos em situações de saúde autodiagnosticáveis. “Precisa ir ao médico para saber que o filho está com piolho? Precisa ir ao médico porque se está correndo o risco de engravidar depois de uma relação sexual no período fértil sem proteção? A resposta é não. Então, não precisaria ir ao médico para receber uma prescrição de pílula do dia seguinte. Muitos tratamentos se tornam inviáveis porque o sistema de saúde não consegue atender o paciente em tempo hábil”, observa Angelita.


Como muitos medicamentos para situações autodiagnosticáveis são tarjados, podem ocorrer duas situações: o paciente ficar sem o tratamento ou automedicar-se, porque, apesar de tarjados, são vendidos sem prescrição nas farmácias, uma realidade conhecida por todos.


“Melhor seria se esse medicamento pudesse ser prescrito pelo farmacêutico. A pílula do dia seguinte, por exemplo, para ser eficaz, precisa ser administrada, no máximo, em até 72 horas após a relação. É muito difícil conseguir uma consulta com um ginecologista em tão pouco tempo. Então, o ideal seria que o farmacêutico também pudesse prescrever os medicamentos para esses problemas, dando agilidade ao tratamento. Farmácia é um local de fácil acesso, todos sabemos disso”, complementa Angelita.


Walleri concorda e considera importante discutir a criação de uma terceira lista de medicamentos tarjados, liberados para serem prescritos por farmacêuticos, ou seja, o paciente somente poderia comprar com uma prescrição farmacêutica. “São exemplos a nimesulida, um anti-inflamatório, a pílula do dia seguinte e o orlistate, que auxilia no processo de emagrecimento, tem um bom perfil de segurança e é classificado como MIP em outros países”, lembra a farmacêutica.


Atendimento farmacêutico fideliza clientes


A farmácia é um local de saúde, mas é também um comércio, e conciliar esses dois papeis é um dos grandes desafios a curto, médio e longo prazo, talvez um desafio a ser administrado ad aeternum. A sugestão é que o farmacêutico dialogue com o gestor da empresa, com o objetivo de mostrar a ele o quanto a farmácia clínica valoriza o estabelecimento. Ao se sentirem cuidados, os pacientes tendem a voltar sempre à mesma farmácia.


“O farmacêutico é um profissional de saúde, mas a gente esbarra na situação de que a farmácia também é um estabelecimento comercial. O que a gente busca é que o farmacêutico avalie o paciente e venda medicamentos, mas de maneira ética, ou seja, sem indicar mais medicamentos do que ele realmente precisa. Indicar eticamente não exclui a possibilidade da venda com lucro. O que não se pode fazer é levar a profissão para um aspecto meramente mercantil”, reconhece Walleri.


Para Angelita, há ainda alguns pontos a serem melhorados, um deles é treinar a equipe para receber o paciente, fazer o primeiro contato e encaminhar ao farmacêutico para o atendimento correto. “As farmácias precisam criar condições para que os farmacêuticos façam o atendimento aos pacientes, bem como treinar as outras pessoas que trabalham nesse processo, para que elas identifiquem situações em que o farmacêutico precisa ser acionado”, reforça Angelita.


Aos poucos, a mentalidade do empresário vem mudando. Prova disso, são as salas de saúde abertas em farmácias de todo o Brasil, que já ultrapassam mais de 4,5 mil unidades. Nelas, além de ofertar serviços farmacêuticos, os profissionais realizam a consulta farmacêutica, prescrevem tratamentos e acompanham resultados.


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