• Viviane Massi

Asmático na farmácia: serviços melhoram qualidade de vida de pacientes com asma



Na primeira terça-feira de maio celebra-se o Dia Mundial de Combate à Asma. Várias campanhas e atividades ocorrem em todo o mundo. No Brasil, a Associação Brasileira de Asmáticos (Abra) vai promover a Cruzada de Prevenção à Asma, com um vídeo por dia na página da associação no Facebook e no perfil do Instagram. Os vídeos serão publicados entre 3 e 7 de maio, sempre às 17h, e abordarão os seguintes temas: Pólipos Nasal, Asma e Asma Grave, Controle Ambiental, Asma e Urticária e Exercícios Respiratórios na Asma e Rinite.


Asma e Covid-19


O termo “grupo de risco” nunca esteve tão evidência como agora durante a pandemia do novo coronavírus. Ele diz respeito a toda pessoa que possua doença crônica, comorbidades ou alguma condição de saúde – como imunodeprimidos e imunossuprimidos – que a coloque numa situação de vulnerabilidade perante a Covid-19. Entre elas, está a asma.

Ainda não existem estudos conclusivos sobre isso, principalmente devido ao fato de que a doença evolui de formas muito diferentes de um paciente para outro. Tudo indica que pessoas com asma não sejam mais propensas a contrair o vírus. No entanto, asmáticos graves apresentam maior potencial de agravamento da doença. Por isso, o tratamento não deve ser interrompido.


Segundo a alergista e imunologista da UNIFESP/EPM, Danielle Kiertsman Harari, membro da Associação Brasileira de Asmáticos (Abras), é importante não confundir os sintomas da Covid-19 com uma crise de asma. Para isso, o médico precisa avaliar de forma criteriosa a história clínica do paciente, saber se ele esteve ou não em contato com indivíduos contaminados e realizar alguns exames, como o RT-PCR para Covid-19.


Cenários mundial e brasileiro


Segundo o Relatório Global da Asma de 2018, a doença mata cerca de mil pessoas todos os dias e afeta mais de 300 milhões em todo o mundo. No Brasil, atinge 6,4 milhões de brasileiros acima de 18 anos, segundo Pesquisa Nacional de Saúde (PNS). As mulheres são as mais acometidas pela doença: cerca de 3,9 milhões delas afirmaram ter diagnóstico da enfermidade contra 2,4 milhões de homens, ou seja, prevalência de 39% a mais entre o sexo feminino. Se incluirmos crianças e adolescentes, o número de asmáticos passa dos 20 milhões, segundo a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.


A doença é a terceira maior causa de hospitalização no Sistema Único de Saúde (SUS). Durante os anos de 2014 e 2015, foram registradas 126.626 internações por asma, sendo 65% em crianças menores de 14 anos de idade. Em 2011, esse número subiu para 160 mil. No entanto, segundo o DATASUS, o número atual de internações por ano já ultrapassa 350 mil na rede pública.


As hospitalizações para o controle da asma são responsáveis por uma parte significativa das despesas do SUS com assistência à saúde, tendo custado, em média, R$ 548,40 por internação no ano de 2015, de acordo com o estudo Análise das Tendências das Internações Hospitalares por Asma no Brasil de 1998 a 2010, publicado em 2015.


O que é a asma e quais fatores desencadeiam a doença


A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas, na qual importantes agentes celulares estão envolvidos, apesar da fisiopatologia ainda não ser completamente compreendida. As complicações da asma estão relacionadas à inflamação, à hiperresponsividade e ao remodelamento crônico das vias aéreas, que, por sua vez, levam a diversos graus de limitação do fluxo aéreo, provocando tosse, dispneia, aperto no peito e sibilância.


Pode se manifestar em qualquer idade, desde crianças a idosos, sendo, em geral, herdada dos pais. Além dos fatores genéticos, obesidade e fatores externos como tabagismo, infecções respiratórias, poluição ambiental, exposição a alérgenos e inalação de poeiras podem desencadear uma crise de asma. Somam-se a esses fatores alterações emocionais e esforço físico do paciente.


Pesquisa do Ambulatório de Pneumologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) comparou a prevalência de asma em crianças da zona rural (16%) e da zona urbana (21%) de Caruaru, demonstrando que o contato maior com a natureza e com menos agentes poluentes diminuem a incidência da doença. Outro estudo mostrou a diferença de casos em domicílios com e sem a presença de baratas, fator que também desencadeia crises de asma.


“A prevenção começa dentro de casa, afastando os fatores potencialmente desencadeantes, como poeira domiciliar, fumaça de cigarro e alérgenos de animais, e fazendo o controle da doença com tratamento medicamentoso profilático quando necessário”, explica a imunologista Danielle, da Abra.


O diagnóstico é feito por um médico a partir da análise dos sintomas clínicos e de um exame de avaliação pulmonar, chamado de espirometria ou prova de função pulmonar, que documenta a obstrução dos brônquios. Os casos mais leves podem ser acompanhados por um clínico generalista, mas os graves necessitam de avaliação e acompanhamento de um especialista, o pneumologista.


Quais os tratamentos disponíveis


São muitos os tratamentos disponíveis e com excelentes resultados. Basicamente, os medicamentos são de dois tipos: controladores ou de manutenção, para prevenir o aparecimento dos sintomas e evitar as crises, como broncodilatadores de curta duração e anti-inflamatórios hormonais; e de alívio ou resgate, para aliviar os sintomas quando houver piora do quadro respiratório, entre eles, corticosteroides inalatórios, antileucotrienos, broncodilatadores de longa ação e imunobiológicos.


Segundo a farmacêutica especialista em Farmácia Clínica e coordenadora acadêmica do ICTQ, Juliana Cardoso, os fármacos de primeira escolha para a manutenção dos pacientes com asma devem ser os corticosteróides. “Aqueles utilizados na forma inalatória, beclometasona, budesonida, mometasona, fluticasona e ciclesonida, apresentam a melhor relação custo/risco/benefício para asma persistente. A prednisona e prednisolona são utilizados sistemicamente por terem meia-vida intermediária e apresentarem menos efeitos colaterais”, explica.


Poucos desses medicamentos são fornecidos pelo SUS, sendo a maioria disponibilizada pela rede privada. Na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename) 2020, para se ter uma ideia, consta apenas o dipropionato de beclometasona, um corticosteroide. O programa Aqui Tem Farmácia Popular, parceria do Ministério da Saúde com farmácias privadas, disponibiliza, além do dipropionato de beclometasona, o sulfato de salbutamol.


No entanto, existem medicamentos mais eficientes e mais modernos. Em 2020, o medicamento omalizumabe, indicado para controle dos casos graves da doença, passou a estar disponível no SUS, pelo menos na teoria. Uma busca na Rename e na lista de medicamentos de alto custo dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina mostrou que conseguir esse medicamento não é tão simples quanto parece. Nas farmácias privadas, ele não sai por menos de R$ 2 mil.


Adesão ao tratamento é um grande desafio


Metade dos pacientes diagnosticados com asma crônica não adere ao tratamento. “Infelizmente, a maioria interrompe o uso dos medicamentos porque o tratamento exige atenção, rotina, disciplina e alguns cuidados especiais. No caso da asma, por exemplo, o paciente precisa evitar o contato com partículas sólidas no ar, com animais com possível potencial alérgeno e o uso de sanitizantes inodoro. As medicações, em muitos casos, são contínuas. Tudo isso e tantas outras medidas podem desestimular o paciente, levando-o a não adesão do tratamento de forma correta”, analisa Juliana.


O acompanhamento farmacêutico é fundamental. “Nós, farmacêuticos clínicos, precisamos proporcionar a educação farmacológica, para que o paciente faça uso de medicamentos adequados, da forma correta e dentro da posologia indicada, com o objetivo de otimizar a terapia, melhorar a função respiratória e prevenir crises agudas que levam ao risco de morte”, acrescenta a farmacêutica.


Os riscos da automedicação são maiores quando se trata de portadores de doenças crônicas. Juliana viveu uma situação mais comum do que se imagina. “Uma paciente asmática me procurou relatando dores na coluna e solicitou uma caixa de diclofenaco de sódio, indicado por algum parente. Entretanto, esse fármaco é contraindicado para asmáticos porque é um anti-inflamatório não esteroidal (AINES), derivado do ácido acético, que atua inibindo COX-1 e COX-2. Pacientes com crise asmática possuem grande concentração de leucotrienos. E, ao inibir COX -1, intensificam-se as ações dos leucotrienos, levando a uma broncoconstrição. Essa situação exemplifica o risco da automedicação e evidencia a importância do farmacêutico na orientação farmacológica do cuidado ao paciente”, conta ela.


Serviços de saúde para asmáticos na farmácia


O trabalho multiprofissional para garantir o controle da doença e a qualidade de vida dos pacientes asmáticos é indispensável. “O tratamento multidisciplinar pode ser muito efetivo. O médico tem o papel de diagnosticar a doença e prescrever um tratamento, que pode ou não ser medicamentoso. Sendo, os farmacêuticos podem auxiliar na orientação sobre a prescrição e o uso dos fármacos. Fisioterapeutas podem ajudar com exercícios respiratórios, quando necessários, e professores de educação física, na orientação de exercícios que auxiliem a capacidade pulmonar”, exemplifica a imunologista Danielle.


As farmácias, já classificadas como estabelecimentos de saúde pela Lei Federal 13.021/2014, podem desempenhar um papel importante na educação ao paciente asmático, orientando sobre como seguir corretamente o tratamento, mas também atuando diretamente no controle das crises.


A educação em saúde pressupõe orientar sobre as condições de limpeza do ambiente, a importância de evitar a fumaça do cigarro e sobre hábitos alimentares que possam influenciar na capacidade respiratória e nas condições físicas do paciente.


Quanto aos serviços farmacêuticos, as salas de saúde podem oferecer basicamente dois: avaliação da função pulmonar e controle da asma (pó seco e inalador pressurizado). A avaliação, realizada pelo peak flow, mede o desempenho respiratório do paciente, sendo um exame decisivo na investigação e acompanhamento da asma, principalmente em seu estágio inicial.


A avaliação pulmonar permite medições específicas para designar a gravidade da asma e os efeitos da farmacoterapia. De maneira simplificada, mede a quantidade e a velocidade com a qual determinado indivíduo consegue inalar e exalar o ar. É simples, indolor, não invasivo e raramente contraindicado.


O serviço de controle da asma consiste na aplicação, pelo farmacêutico, de um questionário que tem a função da avaliar com que frequência o paciente tem usado os medicamentos, sejam de resgate, sejam de uso contínuo. Esse questionário gera uma pontuação final, que classifica o grau de controle da doença.


Para os pacientes asmáticos, deixar de depender exclusivamente do atendimento público e poder contar com a farmácia mais próxima da casa dele são condições muito favoráveis ao tratamento e à manutenção da qualidade de vida, principalmente porque os custos de acesso são baixos.


Para a farmácia, é mais uma forma de agregar valor à marca e rentabilizar a sala de saúde, desde que haja engajamento da equipe, pois os serviços começam no balcão da farmácia, quando um cliente chega em busca de um medicamento. Nesse momento, a abordagem, a apresentação dos serviços e o poder de convencimento farão toda a diferença para uma sala de saúde ser procurada pelos clientes e rentável para o negócio.



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